Camerata Florianópolis: As Quatro Estações

Este texto foi escrito sob a influência de meia garrafa de Vinho Tinto Bonarda, de origem argentina. Preciso dizer mais alguma coisa?

Ela não era a solista de hoje, mas...

“Beijo na boca é coisa do passado, o lance agora é namorar pelado” É o que canta o poeta nos alto falantes da festa de aniversário do meu vizinho. No consigo mensurar o quanto isso está distante da apresentação da Camerata Florianópolis, algumas horas atrás.

Com dois números de aquecimento, dois bons aperitivos, a gangue comandada por Jeferson Della Rocca mostra que veio para nos maravilhar.

Durante os partes das Quatro Estações, divago enquanto cavalgo as ondas sonoras do belo concerto de Vivaldi. Relembro as descrições do que cada movimento representa, e em vão tento reconhecê-las inseridas na música que me envolve. Sou realmente uma nulidade na leitura de qualquer forma de arte! Fico imaginando se alguém ali na platéia consegue ler alguma cigarra, algum ser tiritando na neve e depois refestelando-se diante da lareira. Acho que ninguém, e os ogros agradecem pela beleza da música prescindir desta leitura.

As estações de Vivaldi são as da Europa. Sua música evoca tormentos da Natureza, os quais eram perceptíveis mesmo pelas classes abastadas, mesmo que em intensidade inferior àquela dos pobres do século XVII. Talvez as salas de concerto daquele tempo soubessem do que falam as notas e os tempos de cada uma das Quatro Estações. Hoje o clima já não nos atinge em cheio. Nossas carruagens são geladas ou aquecidas ao apertar de um botão, nossos alimentos vêm de prateleiras impessoais, nossa energia vem por cabos e já não pensamos em lenha ou lareiras a não ser em viagens cafonas a Gramado e afins.

Dessa independência, o que esperar? Haikais dependem fortemente das estações, por exemplo. Como escrever aquelas sílabas mágicas e sintéticas sem a percepção, na carne, de que os dias têm um rosto implacável? Da pauta de Vivaldi parece jorrar uma torrente de relatos das dificuldades da gente do campo diante da Natureza, que mais parece uma madastra do que a mãe carinhosa que conhecemos aqui no Brasil. O que percebem os compositores atuais?

Voltando ao espetáculo, nunca é demais relatar o grau de incivilidade em nossos teatros. Hoje foi uma trinca de pivetes chatí­ssimos na segunda fila. E, sim, eu passei o concerto logo abaixo do sovaco do Della Rocca, e, diabos, aqueles violinos soam muito bem dali. Os embates entre violino solo e violoncelo foram arrepiantes!

Voltando aos pivetes. Eram duas garotas, que tagarelavam como se estivessem no recreio de um colégio particular de subúrbio, e mais um garoto que conseguia extrair ruí­dos inacreditavelmente potentes de uma embalagem de Confetti. Confesso que eles conseguiram levar-me à  beira da fúria homicida. Ante demonstrações de desconforto, ouviram-se comentários no estilo “Nossa, que gente enfezada…”. Por duas vezes chamei a atenção dos animaizinhos selvagens, mas pouco consegui. Lá pelo outono eles se cansaram, felizmente, e houve paz.

E agora, o vizinho anuncia o fim da sua festa. Deve ser um sinal divino para eu fechar este texto, e ir dormir.

(…)

Enquanto isso, conversando com uma estrela, porque não brilhas um instante por toda a constelação, enganando os bobos de guarda-pó nos observatórios do mundo?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Camerata Florianópolis: As Quatro Estações

  1. Victor disse:

    (..) sabe que apesar de não gostar tanto de música erudita, eu fico arrepiado em ver a OSSCA ou a Camerata?

    bem, na verdade eu só entrei para informá-lo de uma revista que talvez o interesse: http://www.cinestesia.com.br !

    abraço,

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