Gotan Project: La Revancha Del Tango

revancha del tango

O tango originou-se de canções francesas, que chegavam no século XIX à América Latina junto com as raparigas francesas nos bordéis. O estilo floresceu na Argentina e no Uruguai, mas foi na Argentina que o tango foi alçado à condição de canção nacional. Carlos Gardel e Astor Piazolla foram dois dos expoentes desta música melancólica e sensual.

A Argentina atual vive, após o ápice da crise dos anos anteriores, um renascimento do tango entre a população jovem. Além de se desenvolver, o tango recebe influências modernas, tais como as que o Gotan Project propõe.

À primeira vista, um desavisado poderia pensar que se trata de uma banda temporária de algum astro com fixação na cidade natal de Bruce Wayne, o paladino de orelhas pontudas e com fixação em morcegos. Todavia, o que se apresenta sob a alcunha chamativa é um grupo de franceses e argentinos, que retomam a ponte entre continentes no sentido inverso. Uma segunda inversão reside entre as sílabas de Gotan, que entregam a idéia toda.

Sou estiloso, não sou?

Segundo os textos promocionais do TIM Jazz Festival, Gotan Project é “uma banda que mistura o tango tradicional a elementos de som eletrônico”. Não deixa de ser verdade, mas o sentido, mais uma vez, precisa ser invertido. O som dos caras parte da eletrônica abstrata de chill out, carrega alguns tons claros de trip-hop, e cobre tudo com um glacê de bandoneons e cordas rasgando em lamentos.

Existem faixas, como época, onde o formalismo del plata persiste, mas Triptico, apesar das inserções de cordas, é um som que cabe melhor nas plateleiras de lounge uptempo. Chunga’s Revenge é trip-hop com alguns tempos rebeldes na batida; curioso descobrir que é uma versão de um original de Frank Zappa.

Algumas das canções trazem alguns samples repetitivos, um dos elementos que mais me irrita no som eletrônico como o do Underworld, por exemplo. Aquelas vozes se repetindo são um saco! Em Santa Maria, por exemplo, um vocal feminino emite a frase “milonga de amor” uma centena de vezes, e uma voz masculina repete “Argentina” e “Buenos Aires”, deixando tudo com uma cara de música pasteurizada para turista.

Last Tango em Paris, versão de original por Gato Barbieri, conhecido jazzman argentino acaba soando como uma canção de Sade Adu. Não que seja ruim, canção é muito agradável, e confesso ser um fã de AOR instrumental. O problema é que não há sangue, não o que eu, talvez ingenuamente, esperava de um disco assim. Ingenuamente porque eu já ouvira que eles eram execrados pela comunidade purista.

E esse é o maior problema do disco. A produção é limpa demais, e o tango, pelo pouco que ouvi de Astor Piazolla, é uma música sentimental, e o suor trespassa as roupas alinhadas dos dançarinos, sem deixar dúvida nos ouvidos. Sintomático, assim, que as faixas mais interessantes sejam aquelas com vocais, como Una Musica Brutal, minha predileta do álbum. A voz coloca a canção numa dimensão mais tradicional, além de permitir que eu acompanhe com meu castelhano inexistente.

Ainda nesta linha, de Piazolla, os meninos regravam Vuelvo Al Sur, belíssima, com aquelas linhas de baixo de milonga, este belo estilo ao qual fui levado pelas Ramilongas de Vitor Ramil. A voz feminina retorna aos alto falantes nesta canção deliciosa, e ganho impulso para começar a audição novamente. Apesar dos pontos baixos, La Revancha Del Tango é um belo disco; no mínimo, uma boa porta de entrada para o estilo, deixando no ar uma vontade de ouvir mais bandoneon.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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