Dois Filmes

Como sói às sessões duplas, esta também desenha semelhanças entre os dois filmes, muito embora a sinopse não dê pistas sobre isso.

A linha que une estes dois filmes é a sutileza com que as tramas são construídas. Seja no caso do monge fugitivo, seja no da escritora fugitiva, os diretores usam de todo o cuidado, pinceladas tênues.

Tão tênues que, aos respectivos finais, você se pergunta se aquilo aconteceu com os personagens, ou se aconteceu contigo. A ponto de pedir beliscões.

Blue Water

François Ozon coloca sua escritora inglesa em um universo ensolarado na França. Mesmo em meio ao verde e ao lado da piscina do título, ela não deixa de ser inglesa, por mais que tente. A liberdade dela se dá através de um artifício literário, pelo qual ela se enxerga pelo matiz da jovem Julie.

Julie é uma menina indecisa entre ser uma ninfomaníaca tarada de pendores promíscuos e uma psicótica traumatizada pela falta de amor dos pais. Julie é um senhor estudo para a escritora, e a tira da rotina. Até aí, nada demais, a câmera passeia com elegância pelas cenas, demarcando territórios entre as protagonistas.

O problema é que Ozon, o cara das Oito Mulheres, invoca de dar uma guinada. Ele prepara toda a platéia para um drama psicológico pouco diferente do padrão gaulês, e, subitamente, resolve arrepiar todo mundo. Ele puxa da cartola mortes misteriosas, livros não publicados, e até uma anã com cara de gato e trejeitos apavorados.

E funciona, diabos! Muito bom! Para fechar, nada como a ambigüidade na cena da piscina, principiada ainda no escritório do editor em Londres, e que fecha naquele clima onírico que deixa toda a percepção prévia nublada.

Blue Sky

E agora, Pan Nalin.

Tashi é um monge, e é um homem também. Devido a esta última característica, a Tashi é delegada a liberdade de ser um completo idiota nos mais improváveis momentos. Ele sai do mosteiro em busca da vida mundana, cujo principal atrativo é o misterioso nheco nheco, que ele acaba praticando com uma deusa fantástica de lábios maravilhosos. Como resultado, ganha um chute na cabeça, um porrete no estômago, e, meu deus, um casamento. Com a deusa maravilhosa supracitada, o que não deixa de ser um bom negócio, dadas as circunstâncias.

É claro que Tashi, como bocó que é, não toca uma vida mundana no sentido bíblico, e logo está bagunçando toda a vida rigidamente regulamentada do lugarejo, ao ponto de seu sogro aparecer em casa de óculos escuros e uma bolsa de pelúcia rosa. Sem falar nos conflitos com o chefe da Máfia local, que você nunca vai saber se foi um canalha ou um ser admirável, uma história que você já leu em algum dos seus dias aqui no planetinha azul.

E o espaço! Se Santa Helena possui imensidão solitária, é uma imensidão de um vulcão no oceano. O Himalaia é diferente, uma imensidão semeada de seres rústicos, ladeados por picos nevados. As casas incrustradas nas grandes rochas embelezam ainda mais a fotografia poética, misteriosas e impossíveis.

A vida mundana de Tashi é dividida por um rio, como na história do monge que queria descobrir Samsara, macacos me mordam se não é essa praticamente uma das bases da história. E ela termina em um transe onírico, como se Tashi explodisse uma bolha de Maya, libertando-se, mas ainda saindo coberto de sua influência, como fossem fragmentos.

Ou não.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Dois Filmes

  1. Christian disse:

    Eu finalmente pude ver Samsara no último feriado de Carnaval.

    Apesar da estupidez irritante de Tashi, o filme é muito bom. O fim é belo. E você percebe como Pema, além de linda, fiel e apaixonada, está mil anos à frente de Tashi — sem doutrina, sem três anos de meditação.

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