Ficção No.11

Doze de Julho de 1992
Estou com sono quando acordo. Como em todo e qualquer dia. Não estou atrasado, mas corro. Se corro, não lembro. Mantenho apagado o trilho de eventos infelizes que se desenharam no rascunho da minha vida. Porque este tem de ser o rascunho. Não posso aceitar a alternativa.

Dezenove de Outubro de 1992
Farbe olha para mim. Ele procura brechas, que exibo às dezenas. Quase tenho pena dele e de seu tempo. Perdidos. Baixo a cabeça. Frestas são indiferentes em um homem derrotado. Disso eu entendo.

Quinze de Agosto de 1993
Estou dentro do lixeiro do décimo-quinto prédio desta avenida. Sei de mais três avenidas, e perco a conta. Não vale a pena. Jogo os sacos, azuis, pretos, indefinidos, uma mistura pouco sábia de cinza e bege,uma cor em fuga. O dia termina.

Dezessete de Abril de 1994
O lixeiro é apertado e quente e demorado. Devem ter me visto fumando. Ou apenas estão me sacaneando. Mas, se fosse assim, Farbe não estaria aqui. Ou foi sacaneado junto. Prefiro não pensar por este ângulo de dupla raiva.

Catorze de Dezembro de 1994
Está pior. Esta rua sempre parece nova. Sempre um novo tugúrio, uma barriga de concreto grávida de churume e volumes suspeitos. Quase penso em pedir perdão ao velho. Farbe parece notar, mas desvia o olhar. Deixo de pensar em fuga.

Treze de Setembro de 1995
Estou decidindo entre um saco azul ou um verde. Vejo poucos sacos verdes em Osaka. É quando ela aparece, espreguiçando-se. Tenho certeza de que ela nasceu ali, mas não acredito; ela não poderia ser tão branca. Apenas os cabelos vemelhos entregam chão às minhas hipóteses.

Dezesseis de Setembro de 1995
Farbe aplica um soco em meu estômago, e sorri. Farbe é muito comunicativo, e não se importa de eu ter levado a criança para o abrigo. Ele não se importa com o abrigo, nem mesmo mora lá. Apenas fiz mal em imaginar que ele não adivinharia no primeiro instante.

Dezenove de Outubro de 1995
A menina come bem, mas prefere aquilo que já conhece. É pouca a comida nos sacos de lixo. E o resto do lixo valeria, mas apenas no terceiro mundo. Ela é um ponto absurdo na curva, e eu caminho ereto ao lado do caminhão. Ela me justifica.

Quinze de Agosto de 1996
Alguém falou de escola. Prestei atenção. Percebo que não dei nome a ela. Não acredito que exista, então não pode ter nome, não pode pensar, pois não fala. Por via das dúvidas, escrevi para a empregada da minha mãe. A pobre mulher não entenderá nada, mas terá lido, e eu serei um lixeiro em paz com seu segredo.

Quinze de Outubro de 1996
Farbe conversa comigo. Fico tão abismado que não respondo a tempo o nome da menina. Ele me soca na barriga algumas vezes. Sorrio, e o nome aparece na minha cabeça. Isolda.

Dezenove de Novembro de 1998
Guardada aqui no abrigo, ela esvazia a caneca, levanta-se, branca de topo vermelho. Sem encarar, diz que eu devo ir embora, que não gosta que eu pense nela como Isolda. Pede uma das maçãs pequenas, e deixa-me sem fechar a porta direito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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