Chuck Palahniuk: Fight Club

Bait Me, FanBoy!

Mau humor terrível acomete este escriba hoje. Normalmente, eu pegaria um assunto bem detestável, e lançaria sobre ele as imprecações apropriadas ao meu momento, independentemente do que pudesse significar para os envolvidos com a criação ou a manutenção do supracitado assunto. Diabos, alguém sempre sofre, é uma das regras.

Todavia, hoje vou falar do pequeno volume de Clube da Luta. E não vou usar o expediente padrão; desculpe-me. Clube da Luta descreve uma realidade tão mau-humorada que eu não pude deixar de reparar em quanto Chuck Palahniuk foi feliz ao mostrar o humor dela intrínseco.

Aliás, “Palahniuk” lembra um amigo de infância, o Emerson Romanhuk. Ele fez uma coisa muito legal com um vidro de maionese benzido. Um dia eu conto sobre isso. É quase Contos da Cripta, acreditem.

Vale também ressaltar que está chovendo aqui, e que eu estou ouvindo um disco de versões acústicas dos hinos-de-cortar-pulsos de uma banda de Oxford. Tão apropriado. Para completar, encontrei a mulher da minha vida, mais uma delas, no ônibus hoje. E ainda criticam o sistema de transporte da tia Ângela. Ingratos. De que outra forma eu poderia ficar quinze minutos observando uma menina linda em poses fantásticas se não por estar preso em um terminal com horários desencontrados? Povo pessimista!

Ao livro então!

Fight Club

Chuck Palahniuk tem as manhas, deve confessar. Ele ficou ali parado, anotando uma centena de neuroses norte americanas típicas. Como os americanos personificam o modelo de vida no planeta Terra, o extrato destas observações só poderia ser um fotograma preciso de um momento como o nosso, um colosso de tempo desperdiçado em eufemismos e móveis de design confuso. E não venha me dizer que você consegue reconhecer o movimento ou fase a qual aquela cadeira verde-limão com ideogramas pertence!

Palahniuk escreveu Clube da Luta com um olho na máquina de escrever e outro na indústria do cinema. O primeiro olho ele teria colocado na sua conta bancária, mas ele deve ser um péssimo datilógrafo, então precisava ficar olhando para o teclado enquanto catava seus milhos. Ele entrega isso logo no primeiro parágrafo, que usa o manjado recurso de apresentar o primeiro momento do final do filme, ops, livro, logo no começo. Ea um recurso interessante para evitar os clichês do estilo “Era uma noite chuvosa…”, mas já está dando no saco, sinceramente. Pior é quando os moderninhos extrapolaram o clichê, não se contentando em começaar a história por um trecho do final, e resolveram contar a história de trás para frente.

Sim, eu sinto um asco imenso quando me falam da inversã temporal no roteiro de algum moderninho. Mas Chuck não faz isso, ele prefere o caminho clássico das bilheterias.

Entenda, eu não vejo isso como um problema! Pessoas precisam levar suas vidas, e se elas escrevem livros legais como Clube da Luta, que depois viram filmes legais protagonizados por caras legais como Edward Norton e Brad Pitt, palmas para ele! É para isso que pago os meus impostos e me mato de trabalhar durante a semana!

O protagonista vive no mesmo mundo que eu e você, provavelmente. Não exatamente, é claro; talvez você não seja um chato de classe-média que sonha com aquela liberdade que aparece no Globo Repórter de bichinhos, e os chatos de classe-média daqui não são os de lá. Mas, com alguns ajustes, podemos entender dessa forma mesmo, correto?

Nosso protagonista estáe saco cheio, exatamente como você. Os paliativos modernos, como o dinheiro aos montes, os móveis coloridos em um apartamento chique e clean, a tv a cabo com sitcoms imbecis e filmes de porrada, nada serve mais para nosso garoto. Nem mesmo as lições de zen de canal de vendas, importado para o Brasil em publicações como Bons Fluidos e Vida Simples, nada disso o apazigua. Ele não sente nada, pois a existência moderna é um analgésico em si, deixa tudo amortecido.

Ele começa a achar que a morte é efetivamente o caminho, e começa a prestar atenção nela, e encontrar quem o escute. Mais tarde, ele poderá se deliciar com o contato real dos seus irmãos, e sentir o gosto do próprio sangue, mais aí eu já estou entrando na dramaturgia do nosso caro Chuck, e isso seria criminoso.

Vou sintetizar minha percepção, então. E é assim: Chuck coloca o seu protagonista no meio de uma sopa de recompensas e eufemismos modernos, que podem muito bem ser comparados a seus equivalentes em Admirável Mundo Novo, com uma pitada de 1984. Tudo vai a um liquidificador, e fica tudo moído no final. Simples assim. E divertido.

Chuck banca uma espécie de Jack London moderno. Ele pinta muito bem os cenários desta história, cheia de violência, humor, e até um romance. Como convém aos tempos modernos, o romance não é assumido. Eu não lembro do protagonista ter um nome, mas é Tyler Durden quem importa. A violência, no livro, é menos ostensiva do que no filme, dependendo do seu coeficiente imaginativo. No livro, é mais simples enxergar o que move nossos doidos fazedores de sabonete: Utopia. E mesmo a utopia se perdeu, difusa nos espaços entre os outdoors ou nas entrelinhas conceituais entre as centenas de canais das televisões a cabo. A esquizofrenia é apenas um detalhe. Leia o livro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Chuck Palahniuk: Fight Club

  1. Pingback: Nick Hornby: Alta Fidelidade « sinestesia

  2. erutp disse:

    Em leitura a uma mensagem postada no dia 11 de abril de 2004, lí sobre um vidro de maionese benzido. Como vc sabe desta história? Isso aconteceu em Canoinhas?

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