Atualidades

Manhã de feriado, ônibus da Insular, antiga Ribeironense, apenas lugares em pé. Estou parado, curtindo o começo de feriado maculado pelos fermentados da véspera. Não tão ruim, salvo por meio litro de sorvete e caminhadas noturnas.

Estou divagando, junto aos meus botões, sobre endorfinas e metabolismo alterado, quando a cena bizarra principia. Uma mãe oxigenada, entrando na meia-idade, está sentada ao lado de sua filhinha, que não deve contar mais do que quatro anos. Antes que eu possa tecer maiores considerações de ordem descritiva, um segurança, mulato, cabelos a caminho de ficarem brancos, um tanto alto, está forçando passagem diante da mulher, e fazendo menção de sentar sobre a infante loira, sob os berros desaprovatórios da mãe.

O Tico e o Teco aqui levaram um tempo para sacar que o homem estava tentando fazer valer a lei, aquela que exige que crianças menores de cinco anos não ocupem lugares das pessoas que pagaram.

A mulher resolve a pendenga da forma mais patética, pagando uma passagem para a filha pentelha, e acaba de vez com a possibilidade de educar a pirralha nos ditames da sociedade civil estabelecida, mas daí eu já estou prestando atenção no tribunal formado no fundo do ônibus, que começa com um murmúrio indistinto, sem dar pista do lado que tomará. Esta etapa dura pouco, e logo temos o veredito, favorável ao segurança-que-senta-em-criancinhas, mas isso tanto faz.

O tribunal continua em sessão, mesmo depois que o caso se dissipa. Os comentários indignados, as recomendações de denúncia, as declarações de apoio, tudo continua, até que chegamos ao terminal de integração, e tudo dissipa pelas portas do coletivo, como se fosse “o sonho dentro de um sonho” de Poe. Observo enquanto uma mulher adulta tenta vazar o controle da catraca por fora da cerca, andando no trilho dos ônibus, mas, nesta hora, não há tribunal, não há massa que justifique indignação.

A recessão dá suas piscadas através de exemplos charmosos, quase líricos, naquela remessa do indivíduo aos tenros anos da infância.

Colocaram um refrigerador com sorvetes da Kibon no restaurante onde costumo almoçar. Antes havia apenas um refrigerador da Nestlé, e falta aos sorvetes da marca suíça charme e apelo às minhas papilas; sempre preferi Kibon.

Curioso, cedendo às lombrigas famintas e quase esquecidas, cheguei junto do cartaz sobre o refrigerador, e constatei que o Tablito, ícone de uma geração, agora custa R$1,90.

De repente, toda a mácula da recessão que se abate sobre o gigante do leito esplêndido também se abate sobre mim, e fica aquela noção pálida, porém indisfarçável, de que estamos bem ferrados neste país. Mas vou ficar rindo, para não destoar do conjunto. Sem meu Tablito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Atualidades

  1. Mirian Yoschie disse:

    Então!
    Hoje vi outra que retrata bem algo que se não é falta de educação é de bom senso.

    Gente dominada por aquele espírito troglodita que fura fila, empurra, pisa e não obstante isso, pra entrar primeiro e ir sentado, passa por cima de todo mundo sem esperar que os passageiros do itinerário anterior tenham desembarcado. INCRÍVEL ISSO.

    É… agente vai levando e nem se dá conta…

    Abraço 🙂

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