O Gaudério e O Samurai

Certa feita, ouvi dizer da semelhança entre o hakama dos samurai e a bombacha dos tropeiros gaúchos. Dizia o texto, ou a pessoa, que ambas as calças serviam para montar a cavalo, assim como a calça do cowboy norte-americano. Não lembro onde ou quando foi isso, mas tal dado, correto ou não, ficou guardado em recônditos mentais meus até pouco tempo atrás, quando uma audição diferenciada de Deixando o Pago permitiu um insight, simples e compartilhável.

João da Cunha Vargas escreveu Deixando o Pago, um poema que Vitor Ramil tomaria em mãos anos depois, transformando-o em uma bela canção, uma riquí­ssima homenagem aos cavaleiros dos pampas, em seu álbum Ramilonga.

Vitor Ramil

Nesta canção, conduzida sobre violões, com a voz calma de Vitor espalhando-se sobre os versos seculares de Vargas, surge uma pista da relação oculta entre os guerreiros japoneses e os cavaleiros gaúchos.

… nunca pensei que minha sina fosse andar longe do pago …

O gaudério de Vargas caminha pelo pampa como o samurai sem um suserano, um rounin, desgarrado, cruzando as estradas.

… bolicho em beira de estrada sempre tem um índio vago, cachaça para tomar um trago, carpeta para uma carteada …

Seguindo pelas planí­cies do Sul, ele junta-se aos nativos de alguma localidade à beira da estrada, de quem pode esperar alguma estrutura e algum respeito naquela forma estranha reservada aos que vivem em peleja.

… como é linda a liberdade sobre o lombo do cavalo e ouvir o canto do galo anunciando a madrugada, dormir na beira da estrada num sono largo e sereno e ver que o mundo é pequeno e que a vida não vale nada …

Samurai

Na lâmina da espada, o samurai via uma fronteira fina entre a morte e a vida, entre hoje e amanhã, caminhando ou deitado cortado ao meio. Ele ama a vida com toda a paixão em seus detalhes mais sutis, e sabe que um dia, mais dia, menos dia, não estará mais aqui, e que as coisas são assim mesmo.

… e sinto um perfume de flor que brotou na primavera, a noite, linda que era, banhada pelo luar, tive ganas de chorar, ao ver meu rancho tapera …

No modo de escrever, soam notas de haikai, não as banalizações ocidentais desatentas, mas formas que relembram as formas tradicionais, com as referências às estações, aos astros, à noite, aos locais onde se deve reverência.

E deve haver muito mais, que minha limitada percepção nem imagina, nem fareja de longe, nem enxerga de vulto. Ou estarei enganado?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para O Gaudério e O Samurai

  1. ventomar disse:

    E olha que nem sou gaúcho, mas gostei da peleia.

  2. Ian disse:

    Pior que eu já havia pensado muito nisso, cara. Outra coisa acho que também há em comum entre os guerreiros feudais japoneses e os gaúchos dos chacos: o espírito.

    Grande abraço!

  3. querrrrido amigo,
    isso sim é que é blog decente. do meu ponto de vista.
    mas dizem alguns que homens são iguais e nao há diferença entre eles. há sim. pau no cu daqueles monte de bosta que nao conhecem personalismo etc…
    cuzões.
    gostaria que voce entrasse no meu blog, trocar idéias…. e bla bla bla.
    isto é culto! (não cultura, cultura é outra história)

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