William Faulkner: O Urso

Gênio!

(…)

Percebeu mais tarde que aquilo começara muito antes. Já havia começado no dia em que ele primeiro escreveu sua idade com dois algarismos e o primo McCaslin levou-o pela primeira vez ao acampamento, à mata, a fim de merecer pelo ermo nome e condição de caçador, desde que se mostrasse, por sua vez, humilde e persistente. Já herdara então, sem o ter visto sequer, o grande e velho urso com uma pata aleijada em armadilha, o qual, numa área de quase cento e cinqüenta quilômetros quadrados, justificara um nome, uma designação definida, semelhante à de um homem vivo: – a extensa legenda de celeiros arrombados e saqueados, de leitões e até porcos crescidos e novilhos arrastados para a mata e devorados, e de armadilhas e tocais destroçadas e cães despedadaçados e espingardas e rifles disparados à queima-roupa e sem causar mais efeito que uns caroços soprados num tubo por uma criança – um corredor de ruína e destruição, começando antes que o menino houvesse nascido, através do qual investia, não coma rapidez mas com o impacto e a deliberação irresistível de uma locomotiva, aquela medonha figura desgrenhada. O urso corria no seu conhecimento antes que o tivesse avistado. Saltava e ressaltava em seus sonhos antes de haver visto a mata virgem onde ele deixara sua marca peluda, medonha, de olhos vermelhos, não propriamente malignos, mas apenas grande, muito grande para os cães que tentavam acuá-lo, para os cavalos que tentavam atropelá-la, para os homens e as balas por eles disparadas; muito grande para a própria região que o delimitava. Era como se o rapaz já houvesse adivinhado o que seus sentidos e intelecto ainda não abrangiam: aquele ermo condenado cujas bordas eram constante e ferozmente abocanhadas por homens com arados e machados que o temiam não porque era ermo, milhares de homens que muitas vezes não se conheciam na terra onde o velho urso lograra um nome, e pela qual corria não como uma besta mortal e sim como o anacronismo indomável e invencível de um tempo morto, um fantasma, epítome e apoteose da antiga vida selvagem que os pequenos e vis seres humanos golpeavam, aos enxames, numa fúria de ódio e de temor, como pigmeus ao redor das patas de um elefante inerte; – o velho urso solitário, indomável e único; viúvo sem filhos e liberto da mortalidade – velho Prí­amo privado da velha esposa e sobrevivendo a todos os seus filhos.

(…)

Trecho de O Urso, conto do volume Desça Moisés, de William Faulkner. Tradução de Hélio Pólvora.

Na Bravo! deste mês, um dos articulistas falou sobre a complexidade de tijolos aparentes de Faulkner. O articulista não disse tudo sobre o genial escritor americano, missão ingrata, mas desvelou uma poderosa faceta do bigodudo caipira.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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