Ficção No. 12

Depois de dois anos passados de deixá-la, ainda sabia que ela espreitava por ali, em algumas memórias, através dos olhos dos objetos aparentemente inanimados que serviam a ela, sempre a ele. Ouvira falar de obsessão nos corredores, mas seu emprego nunca fora um local de verdades, desde que entrara para encontrar algum direcionamento. Encontrara conforto financeiro, do tipo que se evapora dois meses após a indenização, deixando um rastro de contas de celular de tamanho suficiente para ser visto de picos não tão elevados, se devidamente impressos em formulários de papel branquíssimo, daqueles que precisam sofrer toda sorte de ação química até alcançarem uma espécie de Céu dos papéis de escrever, descendentes, agora desmemoriados, daqueles papiros de Egito e nações de areia.

E ela estava ali, como um fantasma, daqueles de filme mexicano, mal produzido. Um fantasma que tinha o poder de mexer com suas partes baixas enquanto decidia o que ia fazer com as partes, pretensamente altas, onde depositava uma confiança nua.

Martirizou sua lembrança, sua própria lembrança, por tempo o suficiente, e já caminhava para a geladeira, mais uma, ele sabia. A lembrança gelava-se, ele concebia vontades, pois agora não as tinha naturalmente, não sentia gosto, não empreendia sua percepção de amanhã e talvez depois, mas apenas uma sensação de que o descanso viria quando ele estivesse olhando para o lado, esperando algum ônibus existencial, alguma carona para fora de sua noção de que o mundo não o aceitava bem. Se o mundo regurgitava, porque haveria de ser justo ele?

Quando criança, escreveu ainda duas cartas mais, exceto uma infinidade de cartões que mandou para amigos chatos que conhecia pessoalmente e outros tantos que deveriam conhecê-lo, mas ele não fora moldado naquela célula, naquele gosto de ser. Se fosse assim um troglodita, porque urrava diante da casa vazia de Helena, tal qual uma mãe divina, que permite uma visão alternativa, e nada uma sociedade proprietária, porque deveria sentir que havia mudado, ou mesmo crescido?

Conteve sua tristeza um mês mais tarde, conforme lembrava-se. Um mês era sempre um espaço de tempo com uma duração corrigível, ajustável, e foi um mês depois, para não se enganar sem um número. Ele soube, por amigos de palavras más, que ela era de outro, e que era infeliz, embora dissesse que era feliz, mas todos a conheciam, e ela era infeliz; não estaria casada de outra forma. Mas, naquela hora, esta hora em que o vejo, ele estava desalentado e perdido.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Ficção No. 12

  1. Fabito disse:

    Hahahahahah.

    O mais engraçado é que a Lisa teve contigo, Gilvan, a mesma atitude que tu teve com os adesivos (e que ela condenou).

    Deixa o Gilvan em paz, porra!

    🙂

  2. Fábio disse:

    Quantos baseados vc fumou para escrever essa viagem? Ou será que eu não entendi nada!!!!

  3. Lisa disse:

    Tu não passa de um metido a intelectual….
    Fui!
    Ahhh….se vc fosse assim tão inteligente, não ia ficar se irritando com os adesivos que os pobres mortais colocam nos vidros de seus carros….deixa o povo em paz, porra!

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