Diálogos Imaginários

– Foi fofo, não?

– É, eu achei. Tudo tão bonito, tão cheio de vida, a fotografia cheia daquelas sombras, uma saturação ensaiando-se pelas bordas do fotograma…

– Estamos poéticos hoje, ein?

– …

– Eu gosto do jeito do cinema independente americano. Tão moderno, tão descompromissado. Viu as pernas dela? De verdade, com a celulite e tudo mais. E o marido era um completo babaca.

– Pelo menos o romance foi perfeito.

– Pudera, dois perdedores. Admira-me que a tradução brasileira não tenha sido Dois Perdedores Perdidos.

– Iam poder dizer que haviam usado o Lost do original, pelo menos.

– Isso!!! Já te disse que te amo?

– Não hoje. Quer dizer?

– Não sei, você sabe, hoje…

zebra crossing

– Eles não tiveram este problema. Aliás, a grande sacada foi a criação desta redoma, longe da busca da eternidade empreendida pelo cinema tradicional americano, para embalar um romance verdadeiro, no qual não pesam as vidas, no final das contas.

– E tão lindo aquilo tudo japonês, tão transitório…

– Como o amor deles. Mas o argumento…

– Que tem o argumento?

– Eles forçaram demais a estranheza do povo japonês. Quase todo mundo fala inglês naquela terra! Ainda se fosse Tucuripe, onde o povo tem aquele sotaque absurdo, nem daqui, nem de lá, como dizem.

me?

– Ah, o Bill Murray é tão engraçado!

– Alguém tinha de tentar dar algum rumo ao filme, né? E ele se esforçou, tadinho! Ficou fazendo aquelas piadas legais, mostrando aquela barriga feia e tudo mais.

– Talvez se ela tivesse mostrado o argumento da estranheza com mais sutileza, devagarinho…

– Mas não, ela tinha de sair escancarando, ganhando a platéia logo após os créditos!

– Ela deve ser mimada.

– Toda mulher é mimada.

– Não é.

– Mas ela é.

– Isto não foi um argumento.

– Não mesmo.

– …

– Aliás, porque vocês enrolam tanto a gente quando estão carentes?

– Talvez porque vocês sejam bobos?

– Ele tinha medo.

– Tanto medo que nem parecia mais ter passado pelo estágio de ter vergonha.

– Então, porque vocês fazem isso?

– Hã, filmes?

under rain

Era para ser uma resenha de Encontros e Desencontros (Lost In Translation) da Sofia Coppola, mas acabou sendo isso mesmo. E ainda não consegui encaixar meu trocadilho com Coppola. Cáspite. Deve ser a naba da minha identificação com o personagem do Bill Murray.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Diálogos Imaginários

  1. Pingback: Patuscando com Coppola « sinestesia

  2. Ops…
    Consertando a ambigüidade do meu comentário anterior: enfim uma resenha decente diante das resenhas que se encontram nos e-pipocas da vida… 🙂

  3. Enfim uma resenha decente. 🙂
    Keep it up, dude.
    Abraço!

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