Jeanne Labrune: Ces’t Le Bouquet

truuuuuuque!

O filme de Jeanne Labrune começa com um truque; a menina do cartaz, fofa como ela só, não aparece na película por mais de um minuto. Quando aparece, é para fazer, curiosamente, reaparecer o buquê a que o título do filme se refere. A cena parece um pouco fora de lugar, mas justifica-se por servir a uma necessidade do roterista desta deliciosa comédia de erros.

Todavia, o filme não deixa de ser fofo apenas porque a menina não está lá. A fotografia é linda, os diálogos são primorosos, as locações são espertas, as interpretações são muito eficientes. As situações, triviais, escondem sutilezas em trocadilhos e jogos de poder.

A grande sacada da diretora é focar em um assunto específico, um pouco distante da percepção inicial da linha do roteiro. Em O Buquê, as pessoas demonstram como formam rápido suas opiniões sobre os outros; em certos momentos, duas frases criam toda a personalidade dentro do observador, que vai, mais adiante, reverter esta personalidade para outra, diversa, com apenas mais duas frases.

Ces't Le Bouquet

Neste ponto, os diálogos possuem o papel mais importantíssimo, e certas reviravoltas dependem, quando muito, do desmascaramento de algum charlatão metido a intelectual. Edith, a ninfomaníaca colega de serviço de Raphaël, é peça-chave neste conceito de tipo, e ganha um final reflexivo e épico, mesmo que dentro de uma sala de seu apartamento. Diantes das imposturas menores dos outros personagens, prontamente punidos ou recompensados, ela precisa buscar sua redenção através de atos decididamente atropelados.

Se existe alguma reflexão além desta, ela está em Catherine diante do indignado ator que entrega flores. Ou na recusa de Robert, o dramaturgo, em ouvir à sórdida gravação do diálogo que Laurent manteve com Catherine, enganando-a sobre sua origem, e aproveitando-se da pose esnobe da moça. No restante do tempo, as personagens flertam com as idéias novas sob intuitos mais práticos, como Raphaël, que descobre, em alguns momentos do ócio resultante de haver sido despedido, como pode manobrar certos conceitos através de suas representações, usando tal semântica para disparar um blefe contra seu antigo chefe.

Kirsch, como bom pivô de trama, está alheio, embora circule em todas as esferas da película. Ele não altera seu modus operandi, embora descubra detalhes interessantes na existência durante os eventos. Por exemplo, a faceta escondida da nostalgia do zelador com quem encontra o buquê, lendo uma certa certeza de que somos todos imigrantes. Idéia antiga? Sim, mas o contexto do filme anda nesta linha de despretensão sofisticada e sutil, o que o torna tão delicioso. Kirsch mantém-se em seu mundo onírico, e apenas sua fina educação o impede o mundo de rejeitá-lo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Jeanne Labrune: Ces’t Le Bouquet

  1. Dé disse:

    Talvez eu tenha antepassados franceses… hehehe…
    Bjus

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