Neil Hannon e Seus Cães.

Neil Hannon um cara especial. Uma das características que o coloca muito acima da concorrência é a capacidade de discorrer sobre temas diversos. Numa época em que a maior parte dos artistas embarca no tédio monotemático das relações sentimentalóides, ouvir um artista cantar sobre os entalhes mais sutis de sua vida. Neil, por exemplo, nunca escondeu seu amor pelos cães.

The Dogs and The Horses traz nossos amigos caninos já no título. Esta canção poderia soar deslocada no álbum Casanova, cujo conceito, fortíssimo, passa longe deste amor etéreo e sobrenatural pelos cães. Mas, colocada logo após Theme From Casanova, um número instrumental que lembra, de longe, Ray Conniff e minhas incursões a supermercados da infância, The Dogs And The Horses vive uma vida distante do disco, como se fosse uma casa simples e sombria em meio a um bairro de mansões luminosas.

Grow Up

Pode ser uma casa sombria em seus pianos diletantes, ao princípio, resguardado de pequenas inserções de orquestra, o tom misterioso do bardo Hannon. Mas logo The Dogs And The Horses mostra-se uma mansão em cada crescendo emocional, com percussões fortes, orquestra bombástica, e a voz explodindo a partir dos quase sussurros. and every dog has its year, my son.

Os cães vivem menos do que nós, assim como os cavalos, e vamos perdendo estes amigos conforme caminhamos pela vida. Esta seqüência de adeuses é o mote de Hannon, que o desenvolve com galhardia, levando-o ao ponto em que eles, cães e cavalos, vão se despedir de nós, quando chegar a nossa vez.

Mais de dez cães passaram pela minha casa. Pela minha vida, mais de cem, acredito, em diferentes profundidades. Cada cão junta-se a cada circunstância, e redunda em um amor diferente. Atualmente, são cinco moças fofíssimas aqui em casa. Uma delas está velhinha, e não assustarei se em breve ela nos deixar.

So the only thing to feel sad about is
The dogs and the horses you’ll have to outlive
They’ll be with you when you say good-bye

No Dogs, No Horses

Até em Short Album About Love Hannon colocou seu amor pelos cães. If é uma canção interessante, e poderia ser bem mais caso Neil houvesse conseguido um laço final para ela. Infelizmente, If termina como se soçobrasse, em vez de alcançar um fechamento condizente com a proposta épica dos versos.

Noves fora, If trata de um amor além das fronteiras fáceis do sentimentalismo das relações entre homens e mulheres. Neil canta sobre a luz, as estradas, o dia, o noite, Jack and Jill, o caminho, a bebida, árvores, estábulos, mesas de jantar, entalhes em forma de coração, choro, cavalos, homens, campos sob o crepúsculo, canções, irmãs, garotinhas, despedidas, e, por mais de uma vez, de cães, my loyal four-legged friend.

O cão, que Neil ama, fica sob a mesa de jantar, e se alimenta dos restos das refeições, sob as reclamações de sua esposa. Até onde sei, Neil tem apenas um cachorro em casa. Orla reclama? Não sei, mas Leia deve divertir-se muito.

Em Short Album About Love há ainda mais uma referência canina em I’m All You Need, mas não cabe aqui.

Laika

No álbum novo, Absent Friends, na faixa título, Neil canta sobre, ora, seus amigos ausentes. E lá está Laika, o primeiro ser vivo a orbitar o planeta Terra. As linhas da canção são lindas.

Laika flew,
Through inky blue,
‘Till Laika neared the atmosphere,
And Laika knew,
Laika’s life was through.

Segundo notícias recentes, Laika teria morrido em poucas horas pelo sobreaquecimento na cabine, tendo entrado em pânico. Se esta não for uma história triste, eu não sei realmente o que poderia ser.

No disco, ela ainda aparece em Laika’s Theme, um instrumental que ganha novas e trágicas cores diante dos fatos dentro do Sputnik II.

Minha avó Ana Maria tinha uma cadela chamada Laika. Esta lembrança ficou borrada na minha infância, e lembro apenas que ela era um pequinês, e mesmo nisso posso estar errado. Vou ter de perguntar à minha avó o que aconteceu com aquela menina peluda.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Neil Hannon e Seus Cães.

  1. Pingback: Iain Banks: Uma Canção de Pedra « sinestesia

  2. Cazuza disse:

    Boas férias!

  3. Mirian Yoschie disse:

    Pois é, Sr. Gilvan… pelo jeito eu vou morrer de velha esperando a foto daqueeeele cão…
    Ainda mais agora, que o moço está de férias..

    Abraço

  4. Fábio disse:

    Fazer o que, animal de estimação, para mim, só se for empalhado. Não latem, não sujam a casa, não derrubam comida nem viram a água, sem contar que não tentam sodomizar sua perna diante daquela tia gorda e puritana que te olha com cara de espanto e idéias maliciosas na cabeça, pensando, gostaria de estar no lugar dessa perna…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s