Ficção No. 14

mitzi

De dia, lembrava da noite passada. Ratos haviam passado sobre sua cabeça, sobre o teto acima de sua cabeça. Ele não os via, mas eles estavam. Não em toda parte, mas acima de sua cabeça, num espaço mítico entre o teto e as telhas, um espaço nunca dantes visitado, mas imaginado à exaustão pela percepção dos passos minúsculos dos roedores teimosos. Eles estavam lá desde uma tarde qualquer, a qual diferenciaria apenas por haver deixado a torneira aberta. Ela corria quando chegou, mas o ralo da pia vencia o fluxo de água facilmente, e pareceu-lhe que não havia justiça no mundo. Seu erro pedia mais, pedia punição. Ganhou ratos, que infestavam o telhado de seus sonhos.

De manhã, deciciu-se a comprar um gato. Não lembrava direito, mas achava que detestava gatos, até mais do que ratos. Tinha pena de ratos, principalmente os brancos, e não conseguiu matar um deles na aula de ciências. Não conseguiria matar um gato, mas nunca havia tentado, então era como se pudesse.

Na loja, dezenas de gatos, e ele não queria aqueles, não queria acariciá-lo, queria apenas que devorasse os roedores, levasse-os embora em sua barriga peluda, em seu ímpeto de olhos brilhantes, sua astúcia de patas misteriosas. Levaram-no ao setor de animais doados, e o vendedor entregou-lhe aquele que imaginou mais violento, brincando com a idéia de que alguém estaria realmente procurando caçar ratos no teto, ainda mais quando todo mundo morava em apartamentos, cada um sozinho ou cada mais sozinhos, o vendedor riu consigo mesmo enquanto entregava a caixa ao cliente, pegando uma doação simbólica na outra mão, sorrindo sempre.

Em casa, colocou a caixa no centro da sala, e serviu-se de um café. Ficou olhando para a caixa, como se a panacéia morasse ali dentro, atrás daquela grade frágil, como se a fera peluda tivesse efetivamente a percepção sobre os roedores e pudesse ajudá-lo.

Deixou o café, aproximou-se da caixa. Com a mão direita, segurou a caixa, enquanto a abria com a esquerda. Foi rápido, tão rápido que nem hoje poderia descrever a sensação do disparo de um felino pela sala tão rápido que nem poderia determinar o número de manchas no corpo cinzento, se é que era cinzento aquele felino, assumindo que assim era, e também que era um mistério.

Não via o gato. Ele caminhava sorrateiro, observando-o dos cantos, atrás das caixas, entre os móveis. Mal ouvia seus passos peludos, e não raro ouvia os silêncios póstumos de ratos entrevados na célula noturna onde o gato mordiscava suas vítimas.

Comprou uma câmera, que capturava cenas noturnas do felino, sempre de olhos vermelhos, mesmo que a luz não estivesse sobre ele, mesmo olhar de desafio interrogativo, pois o gato o conhecia de tanto olhar de cima dos móveis.

E os ratos entregando-se à chacina, que prazer não haveriam de lhe dar estas cenas em outros tempos. Mas a contagem corria contra ele, que não saberia o que fazer sem os ratos invisíveis do telhado quando o gato viesse conversar sobre os termos de tal extermínio. Decidiu que devia agir. Ou…

Era uma manhã branca que viu os rastros dele sobre a estrada na periferia da cidade, e ele arrepiava uma vez a cada arranhada que o gelo ganhava logo atrás dele pela estrada.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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