Greene, Camerata e Kerito

Nunca gostei de títulos, quando estou pensando em textos, e, deveras, nunca gostei de pensar que tenho um título excelente sem um bom texto. Poderia ser uma tragédia, mas não costumo levar a sério o setor literário de minha existência. Se acaso levasse, as páginas previamente escritas, de meu mofado romance, estariam em meus pesadelos noturnos carregando-me às raias da agonia.

Felizmente, pessoas escrevem bem neste mundo, e, certas vezes, terminam suas aventuras com as letras, dando a elas estrutura, um começo, um meio, e, espantem-se, até mesmo um fim. Graham Greene é um destes caras. Comecei a dar importância a este homem depois de assistir ao mediano O Americano Tranquilo, baseado na obra de Greene. Hoje em dia, tendo chegado à metade do meu primeiro romance de Greene, reavalio minha lembrança de O Americano Tranqüilo, e penso que possa ter sido um mau julgamento, e que eu devo rever o filme.

Uma coisa por vez, porém. Monsenhor Quixote é uma obra que prima por um descompromisso semelhante ao assumido pela dupla protagonista nas férias do senhor descrito no título. A Espanha é o palco da viagem de Dom Quixote e Sancho Pança, transpostos no tempo, e transfigurados em um padre de província e um prefeito comunista da mesma província.

Num Rocinante mecânico, abastecido por garrafas e garrafas de vinho, eles atravessam a Espanha discutindo teologia e marxismo. Andariam sozinhos, mas o leitor percebe que há companhias: Franco, Marx, Stálin, Heribert Jone e até mesmo o santo papa.

Por meio de diálogos rápidos e espertos, Greene leva seu leitor por entrelinhas ricas de percepções sutis, encarnando num livro rápido a sagrada missão do bom romance. Imagino a transposição para o teatro, que não deve ser nada complicada, bastando a isso apenas alguns fundos diferenciados, e três atores bem versados em seu metiê.

Outro bicho feio!

Especial de violinos pela Camerata hoje. Como sou uma nulidade em violinos, que nem mesmo é meu instrumento predileto, passo a bola. Antes disso, vou comentar que adorei a Habanera, e que achei a interpretação de Mendelsohn meio enfadonha; acho que ele fica melhor em orquestras maiores, precisa de punch.

A patuléia estava bem comportada, e mesmo os moleques estavam quietinhos, mas eu tinha um vizinho que parecia uma boca-de-lobo. Tinha momentos em que batia uma aragem, mas logo depois ele suspirava, emocionado, e a emoção trazia uma lufada subseqüente que guardava certa semelhança com a passagem de Átila, O Huno, aquele cuja passagem não deixava um broto de grama nas imediações do caminho.

Pobre princesa do biscoito!

Para fechar, um alerta. Minha irmã disse ter visto o Kerito no centro da cidade. O maníaco voltou a aparecer. Desta vez, trajava o indefectível cabeção, e aterrorizava os transeuntes incautos com uma coreografia funesta, na qual imitava, de modo tosco e tenebroso, os passos de certas danças nordestinas. Fica o alerta aos que ainda guardam lembranças da época em que era seguro transitar pelo calçadão do centro.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Greene, Camerata e Kerito

  1. Pingback: Graham Greene: O Fator Humano « sinestesia

  2. Su disse:

    tipo..
    oi…
    Su

  3. Mirian Yoschie disse:

    Haa vc escreve bem.
    Bobo!

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