Wolfgang Petersen: Tróia

Ui, Conan Barbariza!

Épico? Épica é a fila do cinema do CIC para ver Tróia na terça-feira de meia entrada. A danada ia até a porta do Matisse, onde eu detonava meu empanado de ricota e cenoura, acompanhado de um caneco de xôpis escuro. Já conformado com o fato de que eu ia acabar me sentando no chão do cinema, fui observando a patuléia enfileirada. O tipo predominante era o estudante, principalmente de segundo grau. Em segundo lugar, pessoas crescidas daquelas que acham que a sala de cinema é igual à sala na casa deles, onde eles deixam rolar um DVD, e ficam conversando, parando o disco e voltando em alguma cena que, porventura, possa chamar a atenção deles.

Resumindo, paciência divina é requerida para aturar este tipo de audiência. Eu preferiria poderes divinos do tipo “vaporizar pessoas silenciosamente e sem cheiro” ou “enviar para um banheiro fedorento em Biguaçúº”, mas não tenho nem paciência, então deixa quieto.

Começa o filme. Que bosta. A cena de abertura tem o impacto de um cocô de pardal sobre areia. A apresentação de Aquiles é constrangedora; Brad Pitt está todo marombado, e não apenas os músculos o fazem semelhante a Sylvester Stallone, pois uma sensível redução da capacidade dramática se faz notar, e sua dicção está péssima. Mais adiante no filme, Aquiles vai se revelar como um ser refinado, e não como um bruto, e, diabos, o brucutu de saiote não convence nem a minha avó, nem mesmo com aquele pegnoir antilopesco. Para fechar, o saiote dele parece de curvim, e fica balançando com o vento, ui.

Por falar em antilopices, erraram a mão feio na caracterização afetada de Páris, que acabou virando um afeminado, para não dizer uma bichona. Vale ressaltar que não foram observados os costumes de relacionamento dos gregos e troianos, e os atores agem como aquele povo carioca da Globo que vai fazer soap opera nordestina. A diferença é que os atores de Hollywood puxam aquele sotaque britânico do século retrasado para fazer uma média de filme histórico.

Os diálogos são ridículos, uma coleção de frases de efeito vagabundas, daquelas que eu teria vergonha de dizer mesmo depois de três caipiras de steinhager e meia dúzia de cervejas. Um exemplo bom é quando Agamenon está trocando uma idéia com seu conselheiro Nestor, que é a cara do Paul Rabbit, diga-se de passagem. Se é para ser Nestor, que seja o amigo do Zé Carioca então!

E os barcos, minha gente! Que Control + C Control + V vagabundo! Poderiam ter inserido uma não linearidade no photoshop, e tudo ficava até passível, mas, caramba, todos os barquinhos mantendo distância milimétrica é de lascar! A cena do desembarque é totalmente Dia D, e também constrange os presentes com QI superior ao de um berbigão mediano.

As cenas de batalha, que costumam atrair-me a épicos, são confusas demais, e o espectador fica sem uma noção de fluxo de batalha, limitando-se a ver sangue espirrando, cortes e algumas decepações sem maior brilho. O mau uso da câmera lenta é uma das causas do problema do ritmo; parece que o cara botou o estagiário para filmar a bagaça.

Como falta ação, romancezinho aguado. A relação de Helena e Páris deveria ficar apenas na ralação mesmo, porque os atores são péssimos, e declamam apenas frases de efeitos, conforme dito antes, com o agravante de serem piegas e grudentas.

A trilha sonora é uma bosta também, fato evidenciado pela canção que toca nos créditos, uma balada vagabunda e sem graça, sem o necessário impacto, como o de The Hands that Made America, do U2, ao final de Gangues de Nova Iorque.

A atuação de Eric Bana é realmente muito boa, mas temo que se deva mais à comparação com a cacalhada com quem ele contracena, e não uma excessiva qualidade própria. Mas posso estar errado.

O filme nem é tão ruim, mas as pessoas podem esperar mais por um troço que custou 200 milhões de verdinhas, não?

Fechando a banca, uso uma variação sobre a frase final do filme: Ninguém vai lembrar deste filminho xexelento!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Wolfgang Petersen: Tróia

  1. Thiago Lessa disse:

    A priori, sempre que leio seus comentários, fico com um certo êxtase, pois identifico-me muito com o que vc escreve. Conheci-o fazendo uma pesquisa de algum assunto ligado às artes e topei com seu site. Desde então, sempre que tenho tempo, visito-o. Essa é a primeira vez que comento algo no seu site, pois hoje tive tempo e estava, a muito, ancioso por escrevê-lhe estas palavras humildes. Suas críticas são muito boas; geralmente concordo com elas com aplausos. Os adjetivos que atribuira ao “Tróia” foram, nomínimo, merecidos. Eu gostaria de ter organização e recursos suficientes para também montar um site do tipo. Entrementes, para um nordestino do Ceará, adolescente de 19 anos e de classe média, torna-se difícil tal feito. “Prás banda de cá”, quase não vem companias de teatro, orquestras, óperas. E as que acontecem, são tão mal divulgadas que fica difícil acompanhar. Bem, parabéns pelo site. è sempre gratificante ler suas palavras. De um admirador,

    Thiago Lessa.

    R.S.V.P.

  2. Fábio disse:

    Não entendo pq vais ver filmes que não gostas, e sabes de antemão que são ruins….. quaisquer filmes q arregimentem uma fila das que vc descreveu são, sem sombra de duvidas, desagradáveis. Acaso és masoquista?

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