Guimarães Rosa: Primeiras Estórias

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Eu tentei ler Grande Sertão: Veredas faz um bom tempo. Meu pai tinha comprado um exemplar da novela em um aeroporto, e me entregou. Acaba de me ocorrer, inclusive, que o velho nem tenha lido, assim como eu, que engasguei nas primeiras páginas, e larguei mão.

A segunda chance do Guimarães Rosa comigo foi com este Primeiras Estórias, que, por pouco, não toma o mesmo rumo que seu candidato antecessor; tudo por conta do Paulo Rónai. O cara teve as manhas de escrever um artigo imenso na introdução do livro, recheado de academicismos enjoativos e pedantes, um verdadeiro desserviço à apreciação da literatura espertíssima de Rosa.

Fico imaginando porque a obra do Guimarães Rosa possui este poder, de chamar a si toda espécie de divagação vazia de significado, cheia de firulas. Penso que seja o uso especial que o autor faz da língua; pleno conhecedor da língua portuguesa, insere neologismos e variações sobre vocábulos da língua inglesa, o que poderia ser chatíssimo, como pretendem certos analistas de sua obra.

Entretanto, as páginas de Primeiras Estórias nada têm de pretensão masturbatória. O texto flui bem, e, embora o leitor tenha de manter a atenção aos detalhes, não existe prejuízo para o entendimento das narrativas. O contrário, curiosamente, se sucede; as palavras inventadas por Rosa, e suas estruturas, enriquecem o significado, carregando-o com outras linhas de percepção, que falam diretamente ao que eu chamaria de “intuição interpretativa”, correndo o risco de me tornar maçante como aqueles que há pouco critiquei.

Se existe um paralelo com Faulkner, ele reside justamente neste subtexto rico, além daquelas mais óbvias, como a temática interiorana e a apropriação da linguagem coloquial daquelas paragens. Entretanto, Faulkner transcende a narrativa sem que ela deixe de pertencer ao chão onde foi parida. Em outras palavras, o condado fictício do escritor sulista é apenas um outro nome para um pedaço de chão nas bordas do Missouri. Em Rosa, porém, tudo ocorre como se estivesse num éter espacial, em uma verdadeira dimensão separada, emprestando ao conjunto uma atemporalidade não necessariamente mais incisiva, mas diferente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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