Ficção No. 20

Sobre as árvores que cercavam a curva distante de asfalto e aço da cerca central, uma tarde anônima avisava que ia embora, mas apenas dali a pouco, que podia esperar um pouco mais, ouvir um pouco mais, se lhe fosse permitido.

Ajeitou-se ao caminhar apressado sobre as chapas de concreto, que se adivinhavam soltas, mas que ali ficavam, indecisas, sem ir ou vir, impedidas de cair. Os caminhões vinham, e longos ônibus desfilavam como lagartas decididas, cada janela do teto vindo sob seus pés junto com a lembrança de todos aqueles seriados de aventura que populavam uma faixa extensa de sua memória de infância.

Estacou, deixando, aos poucos, de contar os segundos, até que eles parassem, dessem voltas a seus pés, suplicassem que voltasse e os fizesse girar. Esperou, secretamente, que chovesse, que as águas aspergidas lavassem o asfalto como uma benção encharcada de verão. Nada aconteceu. Fora de seus botões.

Soltou-se de pensamentos, balançou o corpo, pendulou em torno dos pés assentados no chão, adivinhando um caminhão e suas providenciais lonas, como saberia que deveria ser, desde sempre. Contra o parapeito baixo, alavancou com o impulso primal. O ruídos da estrada estavam ali num instante, uma infinitude de buzinas, freios, acelerações, rasgares de pneus, entradas e saídas, que romperam durante o instante preciso de girar o corpo uma única vez e reencontrar-se no ar. Rompido o limite da queda, restou um silêncio suspenso que o reteve no espaço, tudo silente e contemplativo, até ser rompido de novo, como se fosse uma passagem no tempo entre uma respiração e outra, que tivesse de ser reescrita.

Depois disso, não lembrava de mais nada.


“…vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É o vazio lá embaixo que nos chama e nos atrai, é o desejo da queda do qual nos defendemos aterrorizados” (Milan Kundera)

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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