Ficção No. 23

Ficou olhando pela janela enquanto ela corria. Gostava de vê-la correndo, e confessava, apenas a si mesmo, que sentia saudade quando ela estava longe. A grama estava molhada, e ele estava feliz de que ela não o estivesse vendo; era mais simples, pois ele não precisava se vestir de observador diantes dos olhos moleques dela.

Tudo funcionava tão bem entre eles, e ele não lembrava do dia em que ela apareceu pela primeira vez. O velho coração gostaria de lembrar com todas as cores que ainda conseguia distingüir, mas era esperar demais; ele iria ficar com esta lacuna até sua morte, e depois, bom, ninguém saberia dizer.

Embora fosse uma onda inconsciente, aquele último pensamento deu-lhe uma instantânea noção de mortalidade. Os velhos olhos foram se apertando, mas não chegaram a fechar; ele já não se deixava levar tão facilmente. Apertou os lábios, então; caminhou com a cabeça baixa, com um olho olhando para cada lado, até onde sua cabeça o permitia.

Ia caminhando para fora da sala iluminada pelo explodido Sol da tarde de outubro, mas resolveu dar meia volta, e roçar os vidros da janela com sua velha blusa de lã, enquanto seu olhar a adivinhava correndo ainda. Aprumou-se com um sorriso sutil, e foi para o quarto. Fechou os olhos e dormiu. Um pouco.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Ficção No. 23

  1. André Hp disse:

    “Ficou olhando pela janela enquanto ela corria. Gostava de vê-la correndo, e confessava, apenas a si mesmo, que sentia saudade quando ela estava longe.”
    Muito foda!

  2. …porque ninguém é digno de saber de onde realmente vêm as pérolas.

    blé.

    teu conto do woody allen tá a caminho.

    bjo.

  3. Jux disse:

    Como é o silêncio amargo
    Apesar das cores tão pungentes…

    Como é gélido o relembrar
    Das doces manhãs enamoradas
    Sem a esperança de que
    Pudessem também voltar…

    Silêncio rude
    Revestido com palavras
    Ruidosas e sem nexo
    Espalham-se
    Enchem tua sala
    cozinha e quarto…

    E ainda assim
    Tantas são as saudades
    Guardadas e resguardadas
    Noite após tarde sem sol…

    Tantas são as palavras
    Que, mudas e inertes,
    São lançadas ao alheio
    Bem no momento em que se deseja
    Apenas alguém que saberá ouví-las…

    Certas palavras só fazem sentido
    no segredo emudecido
    Dos lábios amados…

    * * *

    I wish you a nice day…

    * * *

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