Elizabeth Gill: Goldfish Memories

Na minha concepção, imagino que o porre, o original, a referência, só pode ser o irlandês. O sotaque deles é perfeito para emitir palavras que ficam ótimas quando enroladas; as calçadas das cidades são perfeitas para as pessoas bêbadas cruzarem aos tropeços, abraçados com outros elementos de mesma extração, cantando canções que parecem ter sido compostas por outros bêbados. Sem falar que irlandeses têm concepções religiosas extremas, e parece, em meu delírio admirador, que nada há de melhor que uma boa discussão religiosa entre gente perdida na manguaça; dado que o objeto da discussão é ridículo, considero que o seu potencial de hilariedade sobe aos altos das torres junto aos gárgulas enevoados. Aliás, há tanta névoa que não posso deixar de imaginar que seja efetivamente o bafo de tantos compatriotas pinguços. E pensar que eu vim aqui para falar de um filme, e, diabos, eu vou, mas apenas depois de citar um dos grandes gênios irlandeses, que compôs os seguintes versos para seu Drinking Song:

We’re drinking to life we’re drinking ‘til death
We’re drinking ‘til none of our
Livers are left

Entretanto, eu queria falar da deliciosa comédia romântica que assisti na terça-feira, em um CIC pouco lotado, curiosamente. Para começar, o supracitado sotaque! Deus, que delícia! E a simpatia por estes pinguços daqui do lado verde amarelo: muita bossa nova, e a comemoração do noivo abandonado, decalcada daquelas que tiveram sua gênese nos gramados canarinhos. Logo em seguida, a notável preferência por Ovídio, num gênero de cinema onde o roteiro prefere o caminho fácil das fidelidades épicas.

Os personagens são apresentados de forma didática, assim como é sublinhada a linha mestra do filme, os tais peixes de aquário com memória de poucos segundos. Felizmente, o roteiro brinca com a idéia, e de forma quase negligente, soltando-a nas mãos da psicóloga charmosa, que a trata como uma “lenda urbana”. Será? E interessa?

Sinceramente, não. Tanto que certas coisas são sutilmente óbvias, como o destino da própria psicóloga, que é a cara da minha amiga Bina. Desde o começo, sabemos que vale tudo, e de tudo acontece, tanto nas misturas quanto nos sentimentos. Tendo assumido seu caráter de ser apenas divertido, tal como exige o gênero, o filme exercita uma leveza que torna as soluções do roteiro, por vezes inacreditáveis, em uma seqüência de reflexões saudáveis, quer haja ou não haja identificação.

E, pensando bem, não há como não se identificar: É de amor que o filme fala, e todo mundo sabe que tudo o que precisamos é de amor, como já dizia o famoso quarteto de Liverpool. A fotografia vai nesta onda, com tomadas e enquadramentos pouco mais elebaorados do que um bom programa televisivo, o que privilegia a precisão dos diálogos, sem falar em sua esperta condução dentro do tempo, item essencial para o humor.

Delícia de ironia, delícia de filme, e aquele taxista impagável, que nos desarma logo após empreender um arremedo irlandês das chatíssimas e inevitáveis perseguições de carros, tão caras ao bobo cinema americano. Não perca, apesar do título brasileiro, Todas as Cores do Amor, que faz parecer que estamos indo assistir a um exemplar de cinema militante gay.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Elizabeth Gill: Goldfish Memories

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