Adolfo Aristarain: Lugares Comuns

Lugares Comuns

Depois de algumas projeções, você vai sacando qual é a da cinema argentino. Lugares Comuns funciona da mesma forma que o protagonista, descrito, a certa altura, como “sentimental e brega”. Na mesma tela pinta-se a desolação da Argentina na entrada do século vinte e um, despojada de seu status europeu, jogada na mesma vala que o restante de seus vizinhos. E o argentino estranha; idealista, socialista e tantos outros “istas”, ele se vê baixando na lama junto todos esses outros estranhos vizinhos.

Nosso herói gosta de discutir, e seu filho é sua vítima predileta. Ele desvela o fracasso do filho, que é um pouco o fracasso de todos, um fracasso bem nutrido, que fica deitado no sofá esperando que a felicidade venha. Pelo canal de compras ou pelo futuro dos filhos criados em colégios particulares. E ele não vem, o tal futuro.

Ele, o protagonista, divaga em circunlóquios filosóficos, atravancando um pouco o andamento dos diálogos, que tomam feições sérias, um tanto amargas. Não existe espaço para a fofura neste universo pós-panelaço: o doce argentino sempre nos morde quando o mastigamos. Mesmo que hajam piadas sobre o galo Diego e sobre os cigarros que vão de mão em mão, é ainda a Buenos Aires desolada que domina a tela.

Paralelos com Invasões Bárbaras podem ser traçados: o pai nas últimas, a visita do filho, a decadência do sistema romântico de um país, os imigrantes bárbaros invadindo um país de primeiro mundo. Como em O Filho da Noiva, temos um homem idealista apaixonado e uma mulher que vive em outro mundo.

Existem os coadjuvantes, mas eles são ecos de uma voz que atravessa a película gritando, e ela apenas diz que a morte permeia cada instante de nossa existência, como se fosse um dipolo, e que, se fosse de natureza diversa, não fluiria como flui no meu, no teu, nas veias de um continente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Adolfo Aristarain: Lugares Comuns

  1. Fabito disse:

    adorei a resenha 🙂

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