From the Past

Ontem lembrei de algumas partes da minha infância. Tínhamos um armário de madeira escura, dentro do qual ficavam guardados os livros didáticos que meus pais, professores, recebiam como amostra. As editoras mandavam estes livros para avaliação, pois os professores escolhiam os livros didáticos que a escola deveria adotar.

Eu ficava horas sentado dentro deste armário, entre as pilhas de livros. Aos oito anos, eu não era exatamente vultuoso, de modo que podia me sentar, com relativo conforto, nos espaço deixado por uma pilha de livros. Sempre gostei dos livros de História e Geografia, e acabava dando uma boa olhada nos de Ciências, principalmente no referente a animais.

Neste armário tínhamos revistas também. Revistas banais, elas se revestiam de uma certa mágica, dado que eram poucas de cada espécie. Um exemplar da finada revista Manchete, dissecado até sua essência mais recôndita; era irônico como uma revista com aquele nome podia ter tão pouco texto e notícia, que eram compensados com fartas doses de fotografias, páginas inteiras. Um exemplar de revista masculina, bem comportada; não apareciam pêlos pubianos ou os bicos dos seios, em contraste com o exibicionismo que mesmo as capas de hoje apresentam.

E havia uma revista de avião. Banal como as outras. Exceto por um detalhes, por uma crônica, cujo autor ficou para trás nas minhas memórias, mas cujo conteúdo ainda me faz refletir.

A crônica tratava de uma viagem, possivelmente contada em primeira pessoa, a uma vila isolada em uma serra. As pessoas formavam um conjunto harmonioso nessa vila, todos se ajudavam.

O viajante presencia, depois de certo tempo, a estação das chuvas nessa vila. Desce muita água do céu, e as ruas ficam cheias de entulho, folhas, galhos. Quando a chuva cessa, há limpeza e consertos a serem feitos, e a vila se une em um grande e animado mutirão para limpar e consertar tudo. Em meio a martelos e pás, o povo trabalha com afinco, e, dias depois, tudo está limpo e arrumado, e eles fazem uma festa.

Nosso viajante é um homem moderno e viajado. Explica ao povo de lá a necessidade de fazer algo para evitar a catástrofe anual, e os convence. Logo, tubos e bueiros são montados, e contenções, construídas.

Na chuva seguinte, eles olham pelas janelas, e a água desaparece misteriosamente pelos bueiros. Ao fim de tudo, eles saem de suas casas, e está tudo como havia sido deixado antes das grandes chuvas.

As pessoas se olham, e o viajante vai embora, satisfeito por haver ajudado.

Ele volta no ano seguinte. Encontra tudo vazio. Não lembro se havia um bilhete ou alguma evidência, mas o ponto é que a comunidade seguira para outro lugar, mais retirado. A cidade drenada ficara ali, auto-suficiente em sua manutenção, e vazia.

Hoje, enquanto varria o telhado, tirando as folhas secas do flamboyant, eu ia observando minhas irmãs derrubando as bagas de sementes, e pensando na confraternização de dividir uma tarefa, deixando-a tão agradável quanto um bate-papo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para From the Past

  1. Carol disse:

    Cara amigo, as lembraças das leituras de infância são extremas. Obrigado pela idéia, vou pensar sobre isso e escrever um texto. Eu tinha fixação pela biblioteca da escola. Ficava horas sentada no chão entre as estantes procurando coisas (com uma autorização a muito custo conseguida na diretoria para minhas invasões díárias…)
    Se tem uma coisa que eu posso dizer como me perguntam: “como vc é?” Eu digo: “Eu leio. E amo.”

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