Dias Cinzentos

Uma colega, aqui do trampo, desceu do ônibus junto comigo. Dado que eram horas avançadas na manhã, não havia a pequena multidão que nos permitiria escapar a um rápido colóquio. Naquela situação, não poderíamos apenas acenar rapidamente ou manter o alheamento, e ela comentou, para tapar o vazio, que hoje era um dia horrível.

Parênteses. Há um ditado popular assim: “Quem muito fala, dá bom-dia a cavalo”. Experimente dizer algo desnecessário em qualquer conversa, e a possibilidade de seres mal compreendido será assustadoramente alta. Fecha parênteses.

Abre outro. Meço meu grau de intimidade com uma pessoa pelo tempo durante o qual posso ficar na presença dela sem que precisemos conversar. Quando estou com algum estranho, procuro falar bastante para ele não descobrir quem eu sou. Fecha esse também.

O dia estava cinzento e, segundo ela, horrível. Todavia, já repararam como dias cinzentos são agradáveis? Não há tanto calor enquanto vai caindo aquela garoazinha, e isso vale mesmo para os que, como eu, utilizam o sistema de transporte coletivo da nossa amada prefeita, salve, salve. As cores todas ficam saturadonas, o asfalto pretão, o verde das folhas parece mais flexível, os troncos das árvores ficam escuros e suas manchas mais ressaltadas. Com a retirada da poeira, os contornos ficam mais visíveis, e as cenas ganham uma profundidade peculiar pela luz menos dura, difundida pela umidade no ar e pelas nuvens.

As ruas da cidade ficam esquisitas, como se alguém houvesse esquecido delas. Mas, entenda, é apenas uma pessoa esquecida das ruas, e não todas. Se todas as pessoas esquecessem das ruas, todos estariam em uma loja de departamentos, e isso seria triste de uma forma quase opressiva.

As pessoas andam de forma diferente, e algumas usam guarda-chuvas, e eu confesso que senti um cheiro de mofo quando puxei a regra do plural de guarda-chuva de meus alfarrábios mentais. O problema é quando pára de chover no final do dia, como hoje, em que a alvorada foi linda, pintada de tanto vermelho que eu quase quis estar lá, mas eu provavelmente teria esquecido meu guarda-chuva. Melhor não.

Outras pessoas, geralmente sem guarda-chuvas, costumam bater seus carros em dias de chuva, e alguém do teu serviço sempre aparece com as histórias escabrosas da manhã, e tu consegues logo imaginar dezenas de pessoas virando as cabeças em seus respectivos veículos, ensejando novos acidentes, como se a inevitabilidade pudesse ser provocada.

Resumindo, dias cinzentos são legais. Como os de outras cores.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Dias Cinzentos

  1. Pingback: Dois discos para ficar de bode « sinestesia

  2. Regina disse:

    Tinha que atravessar a longa rua deserta até alcançar a avenida, do fim da qual o ônibus emergiria cambaleando dentro da névoa, com as luzes da noite ainda acesas no farol. Ao vento de junho, o ato misterioso, autoritário e perfeito era erguer o braço – e já de longe o ônibus trêmulo começava a se deformar obedecendo à arrogância de seu corpo, representante de um poder supremo, de longe o ônibus começava a tornar-se incerto e vagaroso, vagaroso e avançando, cada vez mais concreto – até estacar no seu rosto em fumaça e calor, em calor e fumaça.

    Ao ler seus textos, sua sensibilidade, lembrei-me desse trecho de Clarice Lispector.
    Bom dia!

  3. Walkiria disse:

    E como caminhava
    Altivo e em mesmo ritmo
    Tão doce e sereno
    Moço ágil
    Em direção
    À uma outra plataforma
    Olhos luminosos
    Curiosos
    A buscar perguntas
    Para algumas possíveis respostas…

    Sim… ele passou…
    E naquele dia tão cinzento…
    E naquele dia de garoa…

    Somente ele tinha olhos
    Mais radiantes
    Que encheram de alegria
    A sorte tresloucada
    Da alma andarilha
    Que naquele mesmo instante
    Ao lado dele
    Aliás
    De frente a ele
    Passou…

    A surpresa foi tão intensa
    E melhor do que uma certa outra
    pois nada foi premeditada…

    Tão intensa foi
    A magia daquele encontro
    Em que as palavras faltaram…
    A voz se perdeu
    Naqueles passos de menino
    Que por ela passaram…
    Ao que os olhos dela
    Os doces passos foram seguindo…

    “… e pelas ruas vão te seguindo
    mas mesmo assim
    foges de mim…”

  4. Max disse:

    “As tardes gris são dadas à melancolia e à introspecção”. Não creio muito nisso, na verdade, eu até gosto. Digo mais, meus dias preferidos são os de nevoeiro!
    Tudo varia conforme seu humor. Ou como diria um amigo meu: tudo vai bem enquanto vai bem.
    Se você só consegue ser feliz com tempo bom, mude-se para os trópicos!

  5. Carol Doria disse:

    Caro amigo,
    Sábado, acordando num sofá estranho, com gente estranha à minha volta, abro a porta da sala e não posso esconder minha satisfação: meu deus, que dia lindo! Todos olham, procurando o sol.
    Mas eu lhes digo: nada mais belo que os dias cinzas, o asfalto molhado, o cheiro de planta e poeira!
    Excelente post.
    “Ah, se as belas manhãs pudessem voltar…” como diria um amigo meu num poste aqui perto de casa.

  6. Mirian Yoschie disse:

    Adoro dias chuvosos porque tudo ou quase tudo cheira bem. Ontem… antes da noite chegar o céu de Sambaqui estava riscado de rosa, azul claro e dourado… hoje cedo comi pitangas roxinhas. Abre parênteses. Tua tagarelice e teu silêncio-ambos-revelam mais do que tu imaginas. Fecha parênteses.

    Abraço e tudo de bom moço!

  7. Maxie disse:

    Eu tenho uma especial adoração pelos os dias cinzentos! Eles são mais intensos como vc mesmo destacou. Não entendo o preconceito que os cercam. Certa vez comentei com uma amiga psicologa sobre esta preferência e ela disse que isso era um reflexo de minha personalidade sombria. Confesso que não entendi o que ela quis dizer, mas enfim QUE BOM QUE EXITEM DIAS CINZENTOS!!!!

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