Eu e meu Violão de Cordas de Aço

Enjoy The Silence

Engraçado eu colocar um título como esse, e falar algo tão diferente. Na verdade, foi estar tentando tocar, ao violão, uma certa canção que acabou me levando a ter vontade de falar dela, e de uma certa mística que a rodeia. Ainda que não esteja soando nem perto de boa, já se fazem notar certas semelhanças com a original, ainda que esta seja eletrônica, e eletrônica das mais refinadas, depurada ao estado da arte no último disco relevante do quarteto inglês. Nada mais sintomático do que a perda da identidade logo depois. Como alguém poderia seguir para algum depois de limpar todas as arestas do próprio estilo, gerando um disco enxuto e sintético como Violator?

A partir da capa, uma rosa vermelha desenhada sobre o fundo preto neutro, o caule partido, as linhas em branco, o título rabiscado, uma capa minimalista como o Philip Glass que eles seguiram com alguma propriedade no também preto Black Celebration.

E as canções, fluindo sobre o vinil que eu havia comprado nas Lojas Americanas com minhas contadas economias de estagiário, jóias vazando dos sulcos para a agulha, adentrando silício e carbono para seguir ao âmago da cabeça de um adolescente espinhento e cheio de idéias bobas sobre a vida.

Mas não quero falar de discos, e sim de uma única canção, que eu colocaria em uma improvável lista de dez mais importantes de minha vida. Talvez não “importantes”, mas sim daquelas que não me enjoam, nunca. Como as boas canções que não enjoam, ela me decepcionou à primeira audição. Acostumado à execução maciça e às facilidades de Strangelove e Never Let Me Down Again, ver surgir os acordes menores opressores de Enjoy The Silence nas ondas da Musical FM, depois do indefectível aviso do locutor de que se tratava de um Lançamento Musical, com maiúsculas e tudo, foi um tanto desapontador.

A sensação, porém, passou depois de duas ou três audições, e ensinou-me que as coisas difíceis geralmente são as únicas que valem a pena. Soa bobo e trivial hoje, e eu precisaria lembrar a todos como eram quando estavam em seus dezessete e poucos para que entendessem; vou deixar como um exercício, e apenas viver minha lembrança com vigor.

Uma semana depois, eu já era fã, e o amor só crescia a cada audição. Quando a canção saiu das rádios, dando lugar a Policy of Truth, seu eco persistia no vinil, e eu seguia aquele amor de instante, aquela percepção de um momento eterno entre dois amantes.

Quando as audições tornaram, por fim, esporádicas, era a surpresa de reencontrar um ser amado, alguém familiar, que lhe dizia de uma terra natal dentro da tua cabeça, algum lugar de onde tinhas saído antes de ganhar o mundo grande e malvado, um paraíso quase selvagem, como canta outro Michael Stipe em outra singela e perfeita canção.

Agora, apanhando das notas pinçadas e dos acordes fantasmagóricos montados ao longo do capo-traste, a paixão resiste, e, mesmo sabendo das entranhas da beleza, persiste um mistério que me arrebata e confunde.

Enjoy The Silence.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Eu e meu Violão de Cordas de Aço

  1. Roberta disse:

    realmente é como um revival com o ex toda vez que a gente escuta, mas sem a ressaca moral e nem a seriedade implícita. mto massa =D

  2. André HP disse:

    “viola de aço” é uma música fantástica da banda psicodélica Júpiter maçã! 😉

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