Christophe Barratier: Les Choristes

france
Ainda sob o efeito de ter assistido a um trecho do debate entre nossos candidatos à sucessão na prefeitura, disponho-me a discorrer sobre as impressões deixadas em mim por mais um filme do festival de cinema francês. Antes de começar, devo declarar minha aversão à propaganda das lentes varilux, e felicitar ao criador por enxergar muito bem, e não passar pelo drama de escolher um produto de uma classe que permite propagandas bestas como aquela, efeito este amplificado pela apresentação logo antes de uma película produzida na França, evento do qual sempre se aguarda algo, por ínfimo ou ridículo que seja.

Arrisco-me a tomar pedradas, mas declaro firmemente que o filme de hoje era tributário tanto das tradições de garotos órfãos da Londres de Dickens quanto de uma certa divisão da dramaturgia mexicana, onde o malvadíssimo diretor da escola não faria nada feio, dado seu pendor a representar as vicissitudes plenas que Morrissey descreve na abertura do disco dos Smiths em 1985, na canção Headmaster’s Ritual.

Apresentações feitas, o que diferencia este exemplar de outros dramalhões de semelhante cunho? A produção esmerada? Sim, há de se admirar da cuidadosa fotografia, muitas vezes flagrando Mathieu em cenas perdidas, desprendido e perdido num microuniverso de crueldades fatigantes. Ainda não. As reviravoltas previsíveis mas ainda assim surpreendentes? Mathieu sofre fundo na alma quando deixa de habitar o topo encantado de suas próprias fantasias. Os eventos lacerantes, que evocam fios de infância perdida, de uma realização que se mostra ali na esquina, em uma terra de oportunidades? As ironias entregues de lambuja mesmo no nome do estabelecimento, como se o roteirista dispusesse livremente de seu trunfo, de seu trocadilho, como se pertencesse a uma ordem superior de esbanjadores de idéias? Ao olhar do ruivo encimando a quase tragédia de um incêndio, empunhando sua espada vingadora de tabaco?

Não sei mesmo, talvez eu tenha perdido o coração. Emocionei-me com as belas passagens de vozes celestiais, mesmo engabelado pelas dublagens. Entretanto, não alcancei os píncaros sentimentais de meus vizinhos, cujos rostos brilhavam com as lágrimas despencando diante da fábula brilhante diante deles. Divaguei um tanto sobre a necessidade da existência do diretor malvado para que Mathieu chegasse a algum lugar, mas minha atenção ficou orbitando as vozes, calma e dispersa.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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