Francis Veber: Tais-toi

Tais Toi

Onde pode nos levar uma expectativa negativa? Dupla Confusão tem o título horrível daqueles filmes americanos estúpidos que nem mesmo chegam ao cinema, daqueles amontoados de clichês com atores duvidosos e perseguições infinitas em carros. Dupla Confusão é quase isso, mas este quase, felizmente, abrange uma infinidade de cuidados e sutilezas, que arrancaram o exemplar do purgatório, e acabaram por provocar em mim as gargalhadas mais insanas deste semestre.

O conceito central é a clássica contraposição dentro de um roteiro policial. Depardieu faz um ladrão absolutamente estúpido, quase um Beavis comedor de baguetes. Reno está cada vez mais parecido com De Niro, fazendo o seu habitual papel de durão, que pode ser encarado pelo lado da lei, ou pelo lado da contravenção. Mas esqueça sutilezas na caracterização: os papéis são colocados em extremos opostos, e exceções surgem apenas como conseqüências do roteiro, sendo desmentidas pelas personagens coadjuvantes.

Depardieu, o nariz descomunal e torcido mais famoso do planeta, está soberbo, inflando seu Quentin com verossimilhança e detalhes que poucos atores conseguiriam nos dias de hoje, ainda mais em uma comédia despretensiosa. E sobrou um tanto da poção do Obelix, fato notável em diversas cenas.

O tom exagerado da trama escapa das inconsistências usando de lapsos em pontos complicados. Um exemplo é a solução para o final, onde o espectador acaba concebendo um final feliz que é totalmente improvável dadas as circunstâncias catastróficas das encrencas em que nossos heróis se metem. Apesar disso, em algum lugar da sua cabeça, tudo parecerá possível, e os sonhos de Quentin e os da imigrante albanesa se grudaram perfeitamente ao destino do macambuzio Ruby. Além disso, os lapsos facilitam o timing de diversas piadas.

As perseguições são curtas, e as piadas com os carros alemães são ótimas. O desenvolvimento do roteiro é contínuo, denotando um bom estudo. Os capangas são perigosos e estúpidos, e divertidíssimos. Os diálogos são mais densos do que se espera de uma produção dessas, mas não servem à chatice; tendo um espaço de percepção mais amplo, seus músculos abdominais vão lembrar de muitas cenas deste filme.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Francis Veber: Tais-toi

  1. Bina disse:

    Só a viradinha de olho do Reno quando o Quentin chega no hospital já valeu o filme 🙂

    beijocas

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