Kashmir: Zitilites

Kashmir não tem a menor vergonha de soar idêntico a Coldplay; dito isso, pode-se ouvir o disco sem ficar pensando nisso demais, e enxergar algumas diferenças que podem te fazer colocar o disco deles em um lugar visível da prateleira.

Rocket Brothers é um primor da boa intenção, preenche os alto falantes com vocal suplicante e desesperançado, teclados tendendo ao misterioso escoltados por linhas gordas de baixo em um final de canção típico da escola Ok Computer de baladas doídas, com direito a vento épico e tudo mais.

A entrada sequenciada de Surfing the Warm Industry quase te carrega para as bandas ocupadas pelo JJ72, surrupiadas da cold wave dos trilhos de Essex, e dá para ficar aliviado com as guitarras quase nervosas tentando desgrudar os arquétipos, mas acabando por cair ali na face mais U2 de Pablo Honey, emulando o frenesi acadêmico sobre teclados alienados.

Fico pensando no cara que estava com uma camiseta do Travis, e pior, de um single do Travis, já na fase em que eles não enganavam mais ninguém, e na qual o Coldplay já era monstruosamente grande. Como diz uma amiga minha, “tanta gente passando fome, e o indivíduo gasta uma nota em uma camiseta do Travis”. Funesto.

The Aftermath acaba com a minha bela intenção inicial de não comparar Kashmir à banda de Chris Martin. Vai ser difícil me desligar na préxima faixa. Ruby After Diamonds até que tenta, mas ele podia dar uma mudada no vocal para acompanhar a boa vontade da cozinha em colocar um andamento menos retinho.

Enquanto esta não acaba, vou lembrando do banheiro do CIC. Eu estava lá, na quinta-feira, escovando meus heróicos dentes, quando ouvi vozes sinistramente próximas, um evento estranho dada a minha condição de único ocupante daquela birosca. Um exame mais atento, e, caramba, gostei do começo de Melpomene, vago e espaçado, quase eletrônico, e nem parece uma diluição de Kid A, se tu estiveres pensando no banheiro do CIC. Vai lá, tu consegues. Eu olhei para o alto dentro do banheiro, e, não façam isso, meus amigos. Gostei do refrão; já ouvi em algum lugar, mas gostei. O teto do banheiro do CIC é como se a realidade fosse um cenário, e acho que não consigo fazer ninguém entender isso. Diabos, vocês terão de ir lá, embora não valha a pena. Quase nada vale a pena, e eu já me pego ficando vagamente descrente da vida quando ouço esses caras. Realmente, dá vontade de sentar num sofá com um pote de jujubas, e ficar reclamando em ondas divagantes. Ufa, mais uma. Parece promissora, até porque eu tenho medo é de Small Poem of Old Friend, e ela está chegando. Não lembro dela, mas o título me dá arrepios, algo como um prenúncio de pieguice edulcorada e bem tocada. Medo. Mas fico tranquilo, The Push não empurra, arrasta, e, Cacilda, não posso pensar no Chris Martin!

Ramparts nasceu para ser rock, mas se esqueceu em algum pedaço da estrada. Vou escrevendo a resenha do cinema francês enquanto isso. Diabos, este disco não deve ter validade muito longa.

Vamos lá, surpreenda-me! Um riff? Batidas bêbadas? Opa! Não…

Big Fresh! Isso! Leva jeito, a batida promete um reflexo perdido de Cure jogado em dois mil e pouco, com uma pitada de futurismo. Taí, gostei dessa, boas distorções, as guitarras que o Barney Summers poderia estar fazendo com um Ian Curtis que tivesse apenas um pescoço levemente torto por ter sido salvado pela vizinha gorda que estava reclamando das zoeiras depressivas dele. O foda é ter de ouvir um refrão entoado, Big Freeeesh, Big Freeeesh. Pega mal, meninos.

Passou. Começa Small Poem of Old Friend, animada, tem guitarra, tem salvação, tem uns berros, yeah! E termina como se logo depois disso eles fossem gravar com o Sigur Rós. Pelo menos não é com a Gwineth Paltrow, e sei lá como se escreve isso.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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