Emanuele Crialese: Respiro

Hoje não estou no mau humor necessário para comentar a bomba que foi Arthur, mas não preciso alertar ninguém, dado que a produção é do Jerry Bruckenheimer. Então, fica para outro dia, e hoje vou tecer meus comentários furados apenas sobre o segundo filme da sessão dupla de ontem, o italiano Respiro.

Valeria Golino faz uma dona de casa italiana, ainda mais despirocada do que a média tradicionalmente despirocada numa etnia despirocada como a dos italianos. Valeria é mais conhecida como a musa de Charlie Sheen em Top Gang I e II, e também pela participação na bomba pseudomexicana Frida. A espinha dorsal do filme é o agravamento da psicopatia da protagonista, e os efeitos disso na pequena comunidade pesqueira onde vivem.

O rótulo Comédia Dramática é perfeito para este filme; a italianada faz uma toupeirice após a outra, e todos são tão estabanados que ao espectador só resta rir, mesmo nas passagens trágicas da fuga do canil, por exemplo.

Partes isoladas do filme também merecem atenção.

As pequenas gangues de garotos, montados em suas Vespas semi-destruídas, com seus rituais internos, acabam encenando confrontos que remetem às batalhas sintéticas dos drugues em Laranja Mecânica.

O matriarcalismo da sociedade italiana é expresso em garrafais, seja nas atitudes de Grazia, seja nos rodeios com que Marinella laça o jovem carabinero. Marcante também é a relação possessiva entre mãe e filho, que chega a parecer erótica em certos momentos.

Da identificação com o filme, destaco a lembrança distante dos meus parentes italianos distantes, com quem pouco convivi, mas de quem conheci o estilo bagunçado e bagunceiro, e as altas vozes e bravatas. E também pensei em como é bom ter irmãos, mesmo nas cenas em que Filippo empata a vida amorosa de sua irmã em uma belíssima locação. Pasquale, porém, só se ferra; além de ser o pivô na recuperação da mãe, toma belas surras, além do grande mico de ter de ser ressuscitado por uma galinha.

As locações, devo lembrar, são no Mediterrâneo, e, diabos, aquilo é lindo demais; aquele azul do mar tem de ser tombado pela ONU. As pedras sedimentares exprimem uma beleza sobrenatural em sua fragilidade, como se os penhascos pudessem ruir ao cessar de alguma expiração mais forte.

As passagens no mar são as mais delicadas, e que mais exaltam a poesia da vida naquelas bandas. Os pés que se movem embaixo da água, tanto na perda quanto na volta da esposa, são expressivos embora etéreos.

Um filme terno e sincero, como as velhas dos bilhetes da barraquinha de brinquedos. Uma celebração ao espírito tosco tutti buona gente.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Emanuele Crialese: Respiro

  1. bossoni disse:

    Po, vim aqui achando que era resenha de outra Emanuele =/

  2. Fabito disse:

    praticamente uma recriação italiana de Betty Blue.

    com tudo que isso implica, é claro.

  3. Carol Doria disse:

    Que delícia de filme! Me senti em casa (família italiana totalmente histérica – e deliciosa).

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