As Renas e os antílopes

O Robert Smith, certa feita, foi indagado sobre a inspiração dele para escrever canções, e respondem que as melhores ocasiões surgiam quando ele estava muito mal, geralmente depois de noites sem dormir, em agonia, aquelas coisas de artista metido a torturado.

Não obstante a frescura toda, logo em seguida ele comentou que escrevia muito na época de natal e ano novo, que ele considerava a pior época do ano. Naquele exato momento bateu aquele lance adolescente da identificação com o ídolo, e eu senti que ele me entendia. Dali a passar sabão no cabelo e usar roupa preta, assustando velhinhas e moleques na rua, foram dois passos. Sim, eu já fui um trevoso, e, ainda por cima, lo fi, mas isso é outra história.

Eu estava falando, na verdade, de quanto detesto natal e ano novo; detesto até mais do que aniversário. Odeio essa euforia, essa noção de recomeço, de que o próximo ano vai ser uma beleza. Odeio fogos, embora gente passando mal com espumante possa ser bem divertido. Odeio chegar na minha praia no dia primeiro de manhã, e ver aquela cacalhada de flores e dois bêbados retardatários afundados na areia. Odeio a correria de gente para todos os lados, cheios de sacolas, e comprando presente de amigo secreto; aliás, admira-me o fato de Dante não ter encontrado o inventor da brincadeira de amigo secreto em um dos poços de óleo fervente no Inferno. Das duas, uma: ou a criatura maléfica nasceu depois da descida do escritor guiado por Virgílio, ou tinha sido afogado no supracitado poço de óleo fervente.

Bom, noves fora, espero que não apareça ninguém arrastando correntes pelo chão da minha casa; o som delas sobre piso cerâmico não deve ser das coisas mais inspiradoras. Deus, como é bom citar Dickens.

E o que é a alegria semestral deste gaudério senão ir ao dentista? Profilaxia básica, e um sermão sobre como usar o fio dental, o de sempre, em suma, mas o que vale são as revistas. Meu dentista já entendeu o recado, e agora deixou o supérfluo de lado: apenas Caras se enfileiram em seu porta-revistas. Fui direto naquela que anuncia a Xuxa na abertura da temporada na Ilha de Caras, pois tinha visto no Angeloni na semana passada.

O problema é que a dentista veio logo, e não pude ver muita coisa, nem pude confirmar a separação do Fábio Assunção, que eu também tinha visto nas capas do Angeloni. Apesar disso, consegui ver o Gianechini em seu modelito féxion caminhando por algum calçadão de praia famosa acompanhado pelo seu amestrador profissional, quero dizer, personal trainer. Este último era pançudo, e usava um modelito daqueles de cortar grama no sábado, ou para tomar cerveja no subúrbio num domingo de manhã. Porque as coisas são assim?

Mas o filé, da parte que eu consegui ver, foi a Rosamaria Murtinho em férias no Castelo de Caras, acompanhada por dois, uhm, “músicos”. Para identificar os, uhm, “músicos”, é mole: é só procurar nas fotografias por dois muzengas patéticos, mais ou menos como você procurava aquele duende boiola nos desenhos do He-Man, ou, se você é uma garota, pelo Corujito nos desenhos da She-Ra. Ou era o contrário? Bom, o que interessa, é que o sorvete na testa e a falta de noção imperam! A Rosamaria Murtinho (repararam como não dá para falar apenas “Rosamaria”?) fazendo pose de inteligente (diabos, ela é uma atriz, ela consegue fazer isso!), e os dois aprendizes de Joselito aparecendo dos lugares mais absurdos, seja dentro do quarto, seja a céu aberto, saindo de cima de um caminhão. Se eu fosse um segurança, teria fuzilado as duas criaturas assustadoras à primeira aparição.

Agora é esperar junho pela próxima profilaxia.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para As Renas e os antílopes

  1. Pingback: Reciclando o Resmungo Anual « sinestesia

  2. mannnnnnn
    Por vezes fico surpreso como é possivel que em dois paises [e mais] tão doversos se passem as mesmas coisas e que alguns de nós tenham de sofrer com a parafernália do mundo.

    Tudo pá, tudo mesmo. Os Cure, as trevas a melancolia as revistas no dentista, o diabo do fim-de-ano, o natal com os parentes gágás da cabeça aquem só falta um fio de baba, cansado a pender em oscilação como um sismógrafo em histeria. Todo esse mundo falsificado e acima de tudo o não poder cometer homicidio a torto e adireito cada vez que ouço alguma música de natal. Tenho quase a certeza que o White Christmas é uma música com simbologia KKK.

    Tive muito prazer em ler o teu blog. virei cá mais vezes. Saúde e sobretudo coragem.

  3. Mirian Yoschie disse:

    Mon dieu!
    Você? Um trevoso???
    Credo.

  4. mari disse:

    te adoro

  5. Valkyrien disse:

    Bueno…
    Se quiseres, tenho meios inconfessáveis para obter e emprestar a tua doce pessoa tal compêndio e assim, completares a tarefa que é legitimada aos consultórios e aos salões de dita beleza… Sei de certa habitação na qual as moradoras tem acesso semanal a esse, hum, digamos, interessante ensaio das relações humanas em várias esferas sócio-sociais…
    Detalhe 01: o acesso se dá a cada sexta-feira… na paralelepípedo metálico assim chamado “caixa do correio”.
    Detalhe 02: também possuo uma das chaves que abrem a referida caixa receptora postal.

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