Richard Donner: O Feitiço de Áquila

LadyHawke

LadyHawke é um dos últimos exemplares da estética medieval limpinha dos anos oitenta, que ainda geraria o Robin Hood de Kevin Costner, mas logo sucumbiria à visão mais orgânica, de quando o cinema americano agregou as entranhas ao processo. Perdeu-se, nesta passagem, aquele sentimento épico, que não pode ser sentido por estes novos guerreiros providos de tripas, estes seres que fedem por baixo de suas armaduras não tão ideais.

O filme trabalha sem pudores uma imagética medieval simplificada, onde o próprio bispo manda no barraco, sem a companhia de uma nobreza. Os outros elementos também são filtrados sinteticamente: montanhas de pedra, masmorras de castelos, catedrais imensas com vitrais imensos, noite, dia e magia. E tudo isso funciona horrores como base para uma história que celebra o amor platônico, urdido em uma armadilha cruel e extremamente criativa, onde os amantes estão sempre juntos no plano espiritual, mas nunca no plano físico. Simplesmente o amor perfeito.

Sem efeitos digitais, as transformações do lobo e do falcão dependem da imaginação do espectador, que pode contar com cenas escuras para o apoiar. LadyHawke depende do que não mostra, ao contrário das produções modernas, que desnudam e desmistificam os mistérios de uma certa magia.

Rutger Hauer está perfeito em sua encarnação do guerreiro de vestes negras, encimado pela cabeça loira, e preenchido de vermelho. Entretanto, é Michelle Pfeiffer a cereja da cobertura, por mais que Matthew Broderick seja o protagonista, com suas piadas, e sua identificação com o público adolescente.

Pfeiffer é perfeita para o cruzamento de sombras e luzes que se abate sobre sua figura apolínea, uma semi-deusa de cabelos curtos e revoltos, que declara a melhor linha de diálogo do filme, ferida de uma flecha, em um castelo destruído, em resposta ao personagem de Broderick. Ele pergunta are you flesh? are you spirit?, e obtém dela I am the Sorrow, de uma forma tão simples que qualquer cantor angustiado teria inveja dela.

Como demérito para o filme ficam a trilha, eletrônica por demasiado, rock por excesso, envelheceu de forma brutal e deselegante, e a tradução, que, por uma lado, se esmera em manter as rimas do encarcerado no começo do filme, mas insiste em dar um substantivo feminino a Isabeau, desnecessário, traduzindo hawk como “águia”.

Mas, noves fora, um genial clássico da Sessão da Tarde.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Richard Donner: O Feitiço de Áquila

  1. ventomar disse:

    Realmente uma referência.

  2. Turnes disse:

    Clássico Gilvas. Os amantes são deslumbrantes e a fantasia inebria. Como outros dos 80, algo fica datado mas sobra o encanto. Pensei em Fome de Viver. Podias falar dele…

  3. Brian disse:

    Eu também gostei bastante desse filme… e incrívelmente nossas opiniões sobre ele são as mesmas!! ^___^

    Vamos aproveitar esse raro momento.

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