Andrey Zvyagintsev: Vozvraschenie

O Retorno

Did you know your father was an island? Did you know your mother was the sea?

(Roland Orzabal on Raoul and The Kings of Spain)

Tecido com elegância entre duas torres simultaneamente dispostas em planos distintos de percepção, O Retorno é, no contexto inicial uma alegoria ao relacionamento de dois filhos com seu pai, que volta para casa depois de doze anos. Levando em conta que estamos assistindo a um filme criado no país onde nasceram homens com invulgar habilidade para transcrever a alma humana, pode-se ter uma idéia do que esperar.

E não haverá decepção. Se eu fosse reduzir o filme a uma palavra, esta seria fotografia; O Retorno é fotografado com perfeição, cada fotograma demonstra um zelo irrepreensível na busca da imagem significativa, que fala por si mesma.

Um dos garotos possui uma câmera, e são suas fotos que ilustram o epílogo desta tragédia familiar. Mesmo que as fotos sejam por demais perfeitas, elas são verossímeis, são úteis e especiais como o segredo que afunda junto com o barco encharcado de alcatrão.

E a fotografia, na forma de conceito, existe ainda nas camadas do roteiro e da atuação, que mostram os elementos mínimos e essenciais com nitidez calculada, contando a história em matizes de abertura, profundidade de campo e disparo, que mesclam suavemente os contornos dos arquétipos cuidadosamente desenhados para gerar uma emoção de ordem especial. Cada elemento é colocado de forma extremamente econômica, e a mãe é o exemplo mais claro, mostrada apenas o suficiente para gerar o contraponto da segurança em relação ao nomadismo misterioso do pai.

Posso parecer exagerado, mas, em O Retorno, a questão paterna, especificamente, tem um tratamento que transcende aquele visto no já especial Invasões Bárbaras, ao qual se deve dar o desconto por ser mais amplo no leque de assuntos. O Retorno, por sua concisão e leveza, é um titã de película, que há de resistir aos anos com dignidade e significado.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Andrey Zvyagintsev: Vozvraschenie

  1. Deivin disse:

    O filme é realmente muito bom, embora eu tenha levado um tempo para concluir isto, já que o final surpreende e torna-se difícil de se aceitar, pelo menos imediatamente. É uma pena que estes filmes não são “divulgados” como se deveria.
    Gostei muito do seu blog.

  2. Juliana disse:

    em tempo:
    gostei da surpresa! :]

    ei, as fotos do menino não eram perfeitas!
    e, bem, sobre a cena do ‘ré’. tinham árvores por todo o lugar!! tudo bem, destoaria se fosse todo atrapalhado. tudo bem!
    mas e aquela caixinha? aquela idéia não te soou meio perdida? ah. ok, o filme é maravilhoso e é isso que importa. e vou parar de ser chata.

    bjos

  3. Nanda disse:

    Concordo com sua opinião; a fotografia marcante, a importante verossimilhança das cenas, a surpresa do sentimento num filme russo…

    Feliz sua comparação com Invasões Bárbaras. E bem pontuado o ‘exagero’, pois qualquer comentário a cerca de I.B. é forte, há de ser avisado. o filme virou pop. infelizmente?

    Nada a acrescentar!
    Beijos, Nanda.

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