Wolfsheim: Dreaming Apes

pega minha banana!

Dreaming Apes é um tíulo como poucas bandas de pop eletrônico poderiam ter entre seus álbuns, quase um equivalente de capinha de CD para os tí­tulos excelentes de Milan Kundera.

Vozes femininas anônimas irrompem após a caixinha de música na abertura de Upstairs, inaugurando a onda de batidas esquisitamente dançantes que dominarão a primeira metade do disco. Se elas soam um tanto estranhas na máquina musical da dupla alemã, não é dado a discutir; o ponto é que elas ganham o ouvinte numa primeira instância, deixando que os vocais ocupem uma segunda camada de apelo imediato. Esta vocação do disco se encerra na poderosa No Deed Undone, abrindo espaço para canções mais reflexivas.

Existe algo em Dreaming Apes que o faz sinistramente sonífero, ainda que as canções tenham o poder de prender nossa atenção com linhas melódicas, que remetem às frases inesquecíveis de Martin Gore na primeira metade dos anos oitenta. Mesmo cantando, seguindo os afrescos sonoros com atenção, algo nos leva a baixar as pálpebras; péssimo negócio quando se esperam canções para clubes.

Alemães têm humor, mas guardam suas piadas em cápsulas sintéticas, como nas vinhetas destes Gorilas Sonhadores, onde Índia, China, França e a Basildon de 1989 ganham homenagens próximas ao estereótipo, o que deve ter gerado gargalhadas múltiplas nas dependências de estúdios de gravação na Alemanha afora.

A Milion Miles é apropriada e correta, canção perfeita para ganhar avenidas noturnas, batida forte, cordas ensejando devaneios à linha melódica superior sintética, que flutua entre flautas cibernéticas modificadas e pizzicatos orientais..

Outra peculiaridade do Wolfsheim à sua paixão pelos temas curtos, qualidade invulgar em bandas eletrônicas, apaixonadas pelas longas pistas possibilitadas pelos seqüenciadores e pelas amostragens climáticas. A dupla alemã confina seu talento em canções de três minutos e pouco.

Como contraponto, surgem canções como Old Man’s Valley, que parecem vir de uma tradição anterior, de um folk montanhês, regado a harmônicas e poesia das árvores. Ainda mais antiga, a fantasia medieval de Ubers Jahr, cantada em alemão, evoca irresistivelmente uma dança concedida a cortesãs de sorrisos contidos e vestidos expansivos em salões ricos de grandes pés direitos e ainda maiores arroubos de magia.

Dreaming Apes é um disco de transição, e mostra a riqueza de elementos que se repetiria nas peças mais acabadas e menos arriscadas dos discos recentes. Esta riqueza acaba por gerar rebentos por vezes constrangedores, mas que diabos poderia dizer um technopop que não pudesse rir de si mesmo alguns anos depois?

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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