John Sayles: Casa dos Bebês

Poucas coisas me comovem mais do que a boa vontade do cinema independente norte americano; no exemplar de hoje, vemos um grupo de atrizes de meia idade interpretando mulheres que vão ao México em busca de bebês para adoção. Algumas estão lá porque não têm condições biológicas de engravidar, e outras por preferirem adotar filhos, o que evita engordar e adquirir estrias com o método tradicional. Este aspecto torna inevitável uma comparação com as parideiras cibernéticas de Admirável Mundo Novo, que parecem uma mera extrapolação do que se vê na intenção das bem alimentadas mamães ianques.

Um pequeno parênteses: a tradução para o português parece ter sido feita em algum tradutor automático vagabundo da internet. Quando a guria diz “give me a break”, a legenda diz “dê-me uma pausa”, e só fica pior quando alguém diz “puppies”, e a legenda tasca “pupilos”. Lamentável.

Como sói ocorrer aos filmes de conteúdo (sic), Casa dos Bebês usa a denúncia e as agruras sociais como suporte para a verdadeira intenção do cineasta. Neste caso, serve para expor as entranhas de cada uma das mulheres ali presentes. Entretanto, a coisa não funciona muito bem. As atrizes são boas, mas existem algumas limitações de roteiro e direção que não prejudicam o aspecto orgânico da trama. A câmera de documentário deveria trazer alguma intimidade, mas fica na vontade apenas, e limita a representação das imagens. Nossa percepção das personalidades em jogo deveria se sustentar justamente pelas imagens, mas o diretor prefere usar a verborragia para isso. Em vez de mostrar, descreve pelo diálogos, deixando tudo parecido com algum programa de auditório, daqueles que possuem quadros onde as pessoas reencontram entes queridos desaparecidos.

Existe ainda uma certa preguiça, que disfarça-se de despretensão nos primeiros momentos do filme, e que depois não consegue se passar nem se o espectador aceitar que a coisa toda é um documentário. Os debates que poderiam surgir pelos eventos do filme acabam se perdendo na indecisão do cineasta, que vai jogando as cenas sem um propósito maior do que apresentar todas as personagens e seus segredos; quando ele alcança seu objetivo, simplesmente recolhe as câmeras, e manda vir um sanduíche e algumas cervejas para a equipe de filmagem. Sem álcool.

Poucas coisas me comovem mais do que uma pessoa obrigada a tomar cerveja sem álcool, e não há boa vontade neste mundo que justifique.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para John Sayles: Casa dos Bebês

  1. Turnes disse:

    Daí Gilvas! Andei entrando pouco no blog e perdi o bafão sobre o filme da Jennifer Chester Lopez…tinha tantos argumentos!Enfim, desde a revolta dos Adilsons que não via tanta emoção aqui. É isso, continue com suas opiniões autênticas, divertidas e inteligentes.
    Grande abraço.

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