Mike Nichols: Closer

Estou arrependido. Como dizia a minha bicha irlandesa predileta, “o homem só se arrepende daquilo que não fez”, e é este o caso: não escrevi uma resenha de Closer logo após deixar a sala de exibição fedorenta do xópis de Balneário Camboriú. Isso transforma-se em um problema à medida que minha percepção do filme se transforma em ritmo forte, cortesia da visão depurada ao extremo que Mike Nichols impôs.

Do que lembro, minhas percepções negativas ainda são as mesmas. Clive Owen continua fazendo parte do Clube dos Atores com Paralisia Facial, jogando na posição de “sou bronco-mas-confiável” que o notorizou em Arthur, um verdadeiro workshop intensivo de atuações ruins. Nosso galã Jude Law continua lastimável, embora um pouco mais flexível do que Owen. Estes dois fatores não chegam a atrapalhar, dado que Nichols deve ter escolhido os dois justamente pela cara deles, e teve a bondade de não exigir que eles as mudem no decorrer do filme. Owen dá nos nervos com suas obsessões por resolução, e Law resume-se a ser poderoso e perdido.

A trama é simples, beirando o simplista que costumam render roteiros sobre encontros e desencontros, agora restritos a estilos mais despretensiosos, como a comédia romântica, ou a produções com pretenso embasamento, como nos dramas históricos.

A dupla de mulheres está na média da interpretação, e espanta, mas não muito, a decisão de Nichols em limpar-lhes rostos e corpos de maquiagem. Julia Roberts parece ter envelhecido de repente, e Natalie Portman é a ninfa que não esconde suas pequenas estrias.

Nichols, na contramão da moda em Hollywood, filma de forma linear, com exceção de duas seqüências deslocadas no tempo, que ocorrem mais como flashback. A fotografia, como o restante do filme, busca a elegância em lugar de alguma possível inovação, o que soa desolado pelo visível exagero no acabamento; Nichols pinta com um pincel fino, com delicadeza, em lugar da trincha que um estabanado como Michel Gondry usaria, espirrando tinta para todos os lados. Mesmo a verborragia gratuita pode ser vista dentro deste pacote de elegância, como uma exacerbação do que não se mostra, como se as personagens explodissem.

Entretanto, o passar do tempo empresta matizes novos à relação do dominador Dan, que parece o Coelho da fábula, em contraponto ao canino Larry, que encontra na persistência a força para alcançar o prêmio, deixando a Dan exatamente o resto que Larry permite. Interessante é ver Dan, intrigado, tentando usar as armas de Larry, e fracassando de forma exemplar. Vale ressaltar também a habilidade de Nichols em representar as quatro personagens em um plano limitado, que acaba por cortar outros elementos, como os financeiros, que poderiam criar distâncias entre eles, as quais não interessavam a Nichols e à história que ele queria contar. O paralelo com a a arte da fotografia é óbvio.

O exposto acima não exclui, entretanto, o fato de que Nichols filma entediado. Talvez fosse a hora de sair do cinema, e procurar outra forma de expressão, onde ele possa renovar seu repertório através de novas dificuldades. A zona de conforto destrói qualquer criatividade.

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Sobre gilvas

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2 respostas para Mike Nichols: Closer

  1. Pingback: Reciclando o Resmungo Anual « sinestesia

  2. Brian disse:

    Eu também achei esse filme chato… nossa… Ainda bem que assisti a ele em casa… ^__^

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