Peter Murphy: Unshattered

Murphy

Eu estive lendo uma revista virtual voltada à cultura dark, buscando a ficha técnica de Unshattered, disco novo de Peter Murphy. Acabei rindo bastante com o resenhista de lá, que teve as manhas de dizer que “provavelmente seria o último disco do Peter Murphy” que ele resenharia, dada a distância que o cantor inglês tomou de seu passado na essencial Bauhaus, e de como as tinturas luminosas de seu trabalho o tornavam inavaliável por uma revista que trata de sons trevosos.

De fato, Murphy não é mais nada daquele gurizão magrelo que fazia estrepolias diversas no palco, inspirado de uma atitude que orgulharia a seu ídolo Antonin Artaud. Murphy agora é sóbrio, mais sóbrio ainda do que era quando lançou seu primeiro solo, Should The World Fail to Fall Apart, onde ainda guardava resquícios de seu passado cold wave. Logo a influência de um Bowie mais amplo tornou-se dominante, sendo a única guinada aquela dada no álbum Dust, fortemente influenciado pela música turca. Murphy revisita Dust em Breaking No One’s Heaven, onde a influência turca surge como elemento, que ele mostra ter absorvido e incorporado ao seu modo de escrever. Olhando deste álbum, soa como se Dust fosse um experimento, de onde Murphy tirou um novo fôlego para sua musicalidade.

Em Unshattered, ele volta aos trilhos, e como se quase nada tivesse acontecido. Paul Statham é o compositor, com Murphy, em diversas faixas, como nos velhos tempos. A esquizofrenia, como sói ocorrer em artistas ditos maduros, desapareceu, e as canções são tranqüilas para se ouvir. Ainda que as harmonias sejam mais sombrias em Emergency Unit, agressivas nas guitarras de Blind Like Saul, eufóricas na gaita de Kiss Myself, existe um senso de unidade no disco. E isto não significa que as faixas não se diferenciem; longe disso, Murphy demonstra a capacidade de cantar cada faixa de forma diferente, e sua experiência de vocalista e músico fica evidente como o grande motor para as excelentes performances de sua banda. É de reparar também no cuidado que se mostra com o ritmo, evidenciado pelos efeitos wah, e pelo suingue da cozinha.

Cabe ainda traçar uma linha que une este trabalho de Murphy com o de Tanya Donelly. Assim como a menina fofa de Boston, o inglês canta sobre sua família, e sobre o amor que possui por eles. Já em Cascade Murphy falava das sensações evocadas por sua esposa, assim como orava pela vinda feliz de seus filhos, e é delicioso acompanhar a vida deles através das canções com que Murphy e Donelly, cada qual a seu turno, nos presenteiam.

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Pedante e decadente, ao seu dispor.
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