Vitor Ramil: Longes

Longes

Uma guitarra saturada irrompe na abertura de Longes, novo álbum de Vitor Ramil, e não, não é rock. O Primeiro Dia tem gosto de Tambong, e uma melancolia saudável, do tipo que o compositor pelotense absorve do tango e suas cercanias. A canção demonstra a relação afinada de Vitor com seu novo parceiro, Pedro Aznar: o baixo se molda à batida marcial, e ambos se entendem à perfeição com os instrumentos de seis cordas.

Neve de Papel ainda é Tambong, violão solitário e um coro multiplicado, em espera por comunicação, angústia pelo deslocamento incerto. Noturno empresta seu piano circundante a um intérprete claustrófobo em meio à percussão quebrada.

Longe de Você é tão delicada quanto seu título sugere, e bela como só a tristeza consegue ser. Os ruídos eletrônicos, distantes da especialidade tradicionalista de Ramil, casam-se com o dedilhado manhoso e atmosférico.

habitando o fundo de um vulcão
que eu domestiquei

Perdão é um tanto nos passos velhos de Ramil, mas não perde o pique, preparando o terreno para Noa Noa, estranhamente upbeat em meio à introspecção reinante no álbum. Paul Gauguin não é citado apenas; ele mora na canção, que caminha pela areia e e segue a mulher que veste o ouro da nudez. Um triunfo da sensibilidade de Ramil.

E depois a revisitação da banda de Chico Buarque, linda e concisa, com arranjo de metais soberbo, uma nova visão, e um aspecto inusitado de um artista pintado na obra de outro.

Querência é uma revisitação fácil de reconhecer. A letra de João da Cunha Vargas é a pista mais óbvia, remetendo diretamente a Ramilonga. Sutil, porém, é a diferença que lhe propõem as cordas poderosas.

Longes, entretanto, poderia passar bem com menos canções. Como exemplo, Desenchufado fica aquém das outras criações do disco; dá voltas repetitivas em um tema obsessivo, quase sempre no mesmo padrão de relevo.

Mas há de ser nada. Vitor Ramil parece ter encontrado sua veia, enfim. Não que seus álbuns anteriores não fossem bons; eles são. Ainda assim, seus álbuns antigos parecem vagar em busca de uma linha mestra, que eles não conseguem encontrar. Parece que Longes é o exemplar resultante de dezenas experiências nos outros discos, onde as regravações de Tambong seriam apenas confirmações de uma tal evolução.

O violão de Ramil possui a propriedade de avançar sobre os silêncios; primeiramente disposto a rusgas, mas logo depois se lançando às brincadeiras, enlaçando-se sob o registro cuidadoso de Pedro Aznar, que enche os espaços de ambiências redivivas.

O disco fecha com Adios, Goodbye, que ficaria bem na casa onde habitam as canções de Tango, malgrado a natureza sintética destas em relação à robusta formação dos metais da atual. Adiós Godbye tem seu objetivo plenamente compreendido por seu longo trabalho de guitarra.

deixo o Sol dormindo no porão
bato a porta sem ferir o dia

Pessoas classudas sabem bem como fechar um um álbum.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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4 respostas para Vitor Ramil: Longes

  1. Zozi disse:

    Cara, acho esse disco UMA das melhores coisas feitas por aqui no Brasil, e o melhor dele, na minha opinião. O álbum é de uma melancolia visceral.

    Conheço, mas não tive muito contato com os discos anteriores, não me atraíram, talvez por eu não gostar desse formato de voz e violão, MPB agauchada, urbanizada e intelectualizada. Embora o caso do Vitor Ramil nunca tenha sido o de um banquinho e um violão, e um sorriso forçado no rosto, ele foi se aproximando do que fez no longes assim que se encontrava na tristeza da milonga.

    Concordo contigo quando falas que Vitor Ramil parece ter encontrado sua veia nesse disco, acho que ele experimenta de um modo muito maduro, apenas reforçando a essência das composições dele.

    Bem, longes me toca bastante. Sei lá, talvez por ter nascido na mesma cidade moribunda e decadente que serve de inspiração pra ele. Ou só por que é muito bom mesmo.

    Massa a tua resenha, Gilvan.
    Abraço.

    • gilvas disse:

      tenho uma certa curiosidade, meio mórbida, em conhecer pelotas e arredores. tenho um amigo morando em pelotas, e trabalhando em bagé. ele diz que bagé é pavorosa, um povoado gigante que ficou no século xix. não perguntei o que pelotas tem de diferente, mas deve ser melhorzinha, pelo menos, ou ele não se deslocaria todo dia de lá para o trampo e vice-versa.

      e, pou, legal, achei que era apenas eu quem amava o longes.

  2. Luciano Sá disse:

    Parabéns pelo belo texto, cara.
    Já ouvi Longes umas trezentas vezes e continuo discotindo (sic) com o disco.
    Um abraço cearense,

    Luciano

  3. Nanda disse:

    “[…]e bela como só a tristeza consegue ser.”
    Isso é resultado de alguma de nossas conversas?
    Beijo.

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