Ficção No. 31

 

Medo ela sentiu quando sua mãe foi embora sem levar o carrinho; depois disso, nunca mais. Sentada, ela observou os cabelos balançando-se na cadência de passos quase decididos. Sem entender. Sem lembrar. Ninguém poderia contar esta história dela. Apesar disso, o evento instrumentou a vida dela com uma insensibilidade que ainda não se conhecia. Não que fosse o caso de culpar aquela mulher tão distraída, não mais do que se poderia culpar qualquer genitora, e Flávia não era boba; sabia dar consistência misteriosa a seus atos.

A adolescência via Flávia com o rosto coberto de pó-de-arroz, e isso era mais do que uma excentricidade de ruptura. Flávia gostava da dificuldade que outras pessoas teriam em manter a máscara menos do que se regojizava com a sua própria facilidade em fazê-lo, resultante de sua condição. Seu caso de estudo era o garoto da escola que segurara os cabos de energia sem saber que o eram, enquanto ela passava; um gesto cavalheiresco, tão mais intenso por vir de uma criança, e tão doloroso por haver resultado em queimaduras de terceiro grau. Ela calculou rapidamente quantos dias ele levaria até voltar ao piano, mas logo depois percebeu sua estupidez; o garoto nunca voltaria a tocar, seu ímpeto havia se dissolvido pelo choque de uma realidade tão estranha na forma dela.

Quando a mãe voltou, quatorze anos depois, Flávia estava ocupada com seus exercícios de álgebra, e precisava de ajuda. Não de sua mãe. Nem de ninguém. O mundo estava ficando cada vez mais lá fora, e, ainda assim, ela sorria; sabia que viraria naquela curva, cheia de árvores, que se desenhava insinuante pela neblina, e aí seria tudo descida, fechar os olhos e deixar a vida levá-la pela mão de alguém não muito chato e que soubesse ficar quieto quando ela pedisse. Ela teria jeito ao fazê-lo.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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