Inveja

envy

Dos pecados capitais, o que mais lembro é a Inveja. Como diz um camarada meu, diante de uma pessoa que faz algo que ele gostaria de estar fazendo, “está vendo aqui na minha testa, este post-it, escrito inveja?”.

Pois então, mordo-me de inveja, que tenho as manhas de considerar salutar, por gente que toca piano. Fico roído de ver gente que saber pintar bem em óleo ou aquarela. Passo mal de ver rolamentos silenciosos de colegas do aikidô. Tenho acessos homicidas quando vejo pessoas que sabem ler partitura. É o tipo de inveja de coisas que eu ainda não consigo fazer e não tenho certeza de que vou conseguir um dia. Mas vou tentando, vou melhorando aos poucos, buscando.

E existe a inveja curiosa, daquelas coisas que eu não consigo fazer, e que eu dificilmente vou querer fazer algum dia.

Uma delas é ser poligâmico. Fico abismado com a capacidade de uma pessoa manter mais de um relacionamento. Sei de casos de caras que mantiveram duas ou três famílias, e, diabos, é uma capacidade que mesmeriza, quase um super poder no sentido clássico, super-heróico, cueca por cima da roupa.

Existem questões filosóficas, tais como a possibilidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, mas eu nem entro neste mérito. O fato de alguém conseguir tempo para se dedicar sentimentalmente a mais de uma pessoa já é o suficiente para que eu inveje essa capacidade.

Talvez exista a questão da prioridade que dou para relacionamentos. Existe tanta coisa no mundo, tal como podar as árvores, amontoar os galhos resultantes, deitar-se sobre eles, e ficar olhando o céu azulão gostoso coalhado de dezenas de pequenas nuvens esparsas passageiras. Pessoas com mais de um relacionamento simultâneo não devem conseguir olhar nuvens.

Outra habilidade que me impressiona, principalmente de uns tempos para cá, é a de relacionar-se com pessoas triviais. Não é a questão de ser ignorante, bobo, tosco ou mal educado; certas pessoas são totalmente triviais, sem personalidade. E, diabos, parece tão fácil lidar com essas pessoas planas, sem relevo e sem diferenciação, e efetivamente é fácil. Para certas pessoas. Certos caras namoram certas gurias pelo quesito técnico bitola do traseiro ou dos seios assim como certas gurias namoram certos caras pelo tipo de veículo automotor que os transporta.

Longe de criticar tal atitude, o que seria banal, desenvolvi uma inveja terrível dessas pessoas. Eu só gosto de me envolver com gente cheia de rolos, propensa a atitudes bizarras e caprichos fugazes. Gente que vive fora da casinha, procurando pelos passarinhos que acabou de soltar. Gente despirocada, que sorri enquanto caminha. De repente. Já reparou a delícia que é ver alguém sorrir, de repente, sozinho, na calçada do outro lado da rua?

Entretanto, gente difícil é… difícil! E enrolada, enroladora, perdida, encontrada, alegre, triste, descontrolada, rígida. E gente trivial parece tão interessante; gente que faz igualzinho aos outros, e que deixa tudo sempre igual, e que precisa ver televisão para saber o que é legal dizer ou fazer.

Garotas normais são encontráveis às bateladas no Latitude ou no John Bull, e elas estão lá, felizes por serem normais, e por serem encontráveis por gente normal. E os caras normais, triviais, vão lá, e eles e elas ficam e é legal para caramba. Parece. Tenho inveja disso.

Pensando bem, nem tanto. Mas que seria bem mais fácil, ah, seria. Se fosse assim, entretanto, não seria divertido. É, acho que meu pecado não é lá tanta coisa assim.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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16 respostas para Inveja

  1. Clara disse:

    Perfeito…inveja assumida! Nós somos invejosos por natureza, não sejamos hipócritas ao dizer que ficamos “felizes” pelas pessoas (quando alguém tem ou recebe uma coisa MUITO boa a gente pensa: poxa, por que isso não acontece comigo??? pq foi com ele???? que azarado que sou!)
    Veja bem, isso é inveja de bens materiais…pobreza de espírito, falta de senso crítico, falta de noção e ignorância, deixa com eles! Não quero não…rs….

  2. Elisa disse:

    Bom! As vezes é bom se ter inveja, ela faz com que nós avaliemos nossas necessidades de se ter, fazer ou se conseguir alguma coisa. Mas cabe a nós decedir-mos se estamos prontos ou aptos a transformar essa inveja em algo concreto, algo que poderá melhorar nossas vidas ou apenas nos deixar na mesma, podendo ser apenas um espectador das conquistas alheias, nos sentindo igual aos outros que não trabalham a inveja para sua melhoria intelectual, astral ou orgânica.
    Só sei de uma coisa, que cada um é cada um, e cabe a esse um fazer crescer em si mesmo as melhorias que estão no universo nos rodeando. É só saber encontrar.
    Também não gosto de pessoas certinhas, elas são tão metódicas…dãããããããã..mas dou parabéns a elas, pois sem elas não conseguiriamos achar nossos lápis…kkkkkkkk

  3. Loan disse:

    Como pode alguém com tantos dons sentir inveja? O seu pecado não é a inveja. Acho que os pecados se relacionam, todos, de alguma forma. Não que a ausência de dons seja requisito para ter-se inveja. Porém, é melhor compreensível.

    • gilvas disse:

      talvez o ponto é que, quando se é uma coisa, independente dela ser boa ou não, não se é outra coisa. a natureza é, geralmente, excludente, ou um, ou outro. aí a gente fica pensando no outro caminho, na grama do outro lado da cerca. são, enfins, elucubrações sobre a inviabilidade de sentir o que o outro sente.

  4. dani disse:

    sensacional. virei fã.

  5. invejosa-justlittle disse:

    lendo este texto, senti inveja da sua namorada.

  6. André HP disse:

    “Longe de criticar tal atitude, o que seria banal, desenvolvi uma inveja terrível dessas pessoas.”
    incrível sinceridade.

  7. Roberta disse:

    bem legal o texto. inveja é uma questao estranha mesmo ne… mas ser poligamico nao merece inveja nao, e para quem pode, acho q deve ser coisa de nascer assim, mas vixe da tanto trabalho e dor de cabeca… digo pela minha breve experiencia como poligama, nao sei como tem gente q vive bem assim.

    Bjos

  8. mafra disse:

    uau!

    eu (outra vez) invejei parte do texto (mas gostei de saber que poderias ter inveja de algumas coisas que consigo fazer…).

  9. Ana Corina disse:

    Ai, Jesusi! Não tenha inveja não, porque invejar é querer o que é do outro. Na real, acho que não tens inveja, tens é curiosidade de entender ‘como’. E lembre-se, tem gente que mal desceu das árvores… Há certas questões que estas pessoas simplesmente sequer apreendem… É a abençoada ignorância…

    😉

  10. Pingback: Legs McNeil e Gilliam McCain: Mate-me Por Favor « sinestesia

  11. Jux disse:

    ahhh…
    e os caminhos tortuosos
    por vezes secretas
    trazem dor ao coração…

    não é dor… em si…

    é raiva besta…

    é dor estúpida
    que nasce no desejo de ser
    de ter e viver
    aquilo que nos é longe…

    mesmo esta mera artesã
    de letras e pensamentos
    tem seus momentos de desejar… isso…

    deseja ser como a menina
    mais popular, delicada
    gostosíssima e fêmea
    da turma…

    por um dia que fôsse…

    daquelas que sabem usar uma mini-saia
    daquelas que sabem ser bobas
    na hora certa…

    daquelas que sabem fazer beicinho…
    daquelas que sabem ronronar baixinho…

    eis que ao olhar o espelho
    olhos apenas
    vislumbram…

    mãos que escrevem…
    boca que sabe beijar…
    corpo que sabe amar…

    ainda que não saiba usar a tal da saia…

    os pés que sabem correr…
    pernas para pular e brincar…
    ouvidos que sabem ouvir
    ao apelos e dores dos amigos…

    e braços que sabem abraçar o mundo…
    e intuição capaz de entender esse mesmo mundo…

    ***

    um consolo? usar um vestido delicado, uma ou duas vezes ao ano… em boa companhia… com direito a meias fina preta e salto alto…

    ***

  12. sol disse:

    sabe quando as coisas simples são preferíveis? eu acho que às vezes é isso.

    às vezes de nada valem aqueles clichês lindos e complicados e apaixonantes. porque eles sempre vão ‘precisar’ continuar assim.

    e, estranhamente, eu acabo sendo uma dessas pessoas que sorriem sozinhas andando na rua, quando eu percebo algum encanto, dos mais bestas.

    prefiro as complicações totalmente despropositais.

    mas isso tudo você deve imaginar.

    beijos.

  13. carol doria disse:

    tenho como capricho gostar de todo mundo que ‘e estranho, que precisa de psiquiatra, que grita na rua quando tem vontade, que gosta de ir a praia pra ler filosofia, que nao se importa muito com a cor das calcas, ou se eu acabei de acordar.

    sempre invejei minhas amigas lindissimas com seus jogadores de futebol (ou hockey, agora aqui em Montreal). demorei pra descobrir que interessante era eu, com um gosto pela vida que nunca vi nos olhos delas. eu vejo beleza nas coisas. eu deito no ponto de onibus pra ver a chuva. eu gosto de sexo. eu me sinto sozinha toda hora e preciso procurar uns amigos na estante. eu namoraria comigo, e nao com elas.

  14. Turnes disse:

    Eu não tenho inveja de boys and girls do Latitude. tenho inveja de ti que filosofa sobre o infilosofável.

  15. fran. disse:

    desculpa te decepcionar, mas eu já havia pensado nisso.

    obrigada por ter organizado de forma gostosa.

    eu tenho inveja dos evangélicos.
    essas pessoas que acham saber todas as verdades do mundo.

    discutíamos bons tempos sobre isso.

    e inveja dos que conseguem achar coisas escrotas, normais.

    :*

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