Ficção No. 35

furado

Olhou longamente a extensão de metal diante de si, e demorou-se na contemplação do padrão quase indistinto de pinturas velhas sobre o metal e a corrosão que o ameaçava. Se havia tragédia na percepção de que tudo ruía, ele se agarrava ao ponto de vista do Imediato Soares, cujas palavras “navio meu não vai ao fundo mesmo que eu tenha de completar todos os furos com meia tonelada de cocô de gaivota e meu cuspe” não saíam de sua cabeça. Era uma pessoa espirituosa, pensava ele de Soares.

O mar tinha sido constante na última vez, assim como na antepenúltima, e agora ele coçava a barba rala, imaginando se o que havia para ver por ali já não tinha se esgotado. Do começo ao fim, aquela embarcação lhe pareceu um tanto uma evasão de sua verdadeira vontade, conquanto estivesse pronto a navegar, agora que saía do estaleiro, com suas feridas quase curadas sob as bandagens de efeito psicológico. É, era de se pensar.

Pôs as últimas correções na carta, para que sua mãe não pensasse que era relapso. A velha sempre odiaria qualquer traço de vadiagem que se infiltrasse em seu campo de visão, e não custava mantê-la em suas crenças.

Enquanto lambia o adesivo para fechar a carta, reparou que havia esquecido de como era beijar os lábios dela.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Ficção No. 35

  1. carol doria disse:

    risivel amor: teu link pro kundera ta quebrado. e nao ‘e brincadeira nao.

  2. *tha disse:

    lindo

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