Oitenta

butterflies

Os anos oitenta foram, para alguns, um porre. Cabelos estranhos, culto ao ego, sintetizadores de timbres duvidosos, metal farofa, e roupas de cores esquisitas, sem falar em calças curtas de cortes nada ergonômicos.

Apesar das aparências, fez-se muita música boa nos anos oitenta. A tragédia dos ouvintes modernos, talvez, seja a de que as festinhas anos oitenta foquem apenas na parte mais ruim das músicas daquela época.

Algum estudo sociológico poderia explicar porque as pessoas insistam em relembrar seus anos áureos pelo seu viés mais ridículo. Talvez seja uma forma de afastar o fantasma da falta de emoção em seus dias atuais, em comparação com os seus dias de juventude. Elucubrações.

Ouvindo Curve agora, de seu maravilhoso disco de estréia, Doppelgänger, penso que eles, Curve, é que estão certos: juntaram a eletrônica introspectiva, uma deliciosa característica dos anos oitenta, e mesclaram com a distorção que os niilistas anos noventa pediam. Quando o fizeram, teriam recebido a benção de dois ícones daquela época, justamente aqueles que gravaram os discos da ressaca daqueles anos.

Disintegration

Em 1989, o Cure lançava Disintegration. Bob Smith tinha experimentado a dominação da facção pop-rock alternativa em nível planetário, e estava para dar o passo definitivo na dominação do mercado americano.

Como era de se esperar, deu uns chiliques: chutou a bunda do tecladista, amigão de infância, e xingou o Def Lepard por bloquear o primeiro lugar da parada americana.

Entretanto, nada disso eclipsa a viagem introspectiva que é Disintregration. Gravado ao vivo em estúdio, com vocais gravados depois, traz uma banda sem preocupação com sucessos. As canções são lentas, e chove o tempo todo. Bob chuta e é chutado, é mutilado, perseguido, fica sozinho, se abraça em palmeiras no meio da neve, e nós, ouvintes, agradecemos. Nada como ser triste com estilo.

Violator

Em 1990, foi a vez do Depeche Mode. Dados por mortos em 1985, após serem achincalhados pela imprensa inglesa todos os dias da semana desde 1981, e tendo revertido o quadro de forma brutal com o poderoso lançamento de 1987, os rapazes de Basildon estavam prontos para gravar sua obra-prima.

Violator concentra todos os elementos que a banda trabalhou desde o princíio, e os depurou de forma exemplar. Em 2000 foi lançada uma versão Reload, toda remixada, que apenas faz comprovar o caráter pouco banal das canções. Dave Gahan está no topo de sua forma, e a eletrônica era dominada com precisão de artesãos refinados. Flood, François Kevorkian e Anton Corbjin ajudaram também, mas o importante foi o momento da banda.

Toda vez que relembram os anos oitenta como piada, puxo esses dois discos maravilhosos da gaveta. Hoje ouvi os vinis, e foi o que eu consigo ver de mais legal em nostalgia: pops de agulha sobre as imperfeiçães dos sulcos. O resto é desrespeito.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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