Dois Filmes

ibrahim

Meus planos eram ligeiramente diferentes ontem, mas acabei vendo, novamente, Amizade Sem Fronteiras, que já havia visto no ciclo francês do ano passado. A cópia estava, sintomaticamente, mais detonada, se é que era a mesma, mas nada que comprometesse a sessão.

Nesta segunda vez, foi bom rever as situações cotidianas bem construídas e as risadas gostosas, muitas vezes beirando a esquisitice, em que se metem Momo e seu protetor, sempre complementadas por citações de filosofia sufi, que eu admiro.

Certos momentos, entretanto, saltam aos olhos como verdadeiras realizações cinematográficas, e o que mais me chamou a atenção foi a cena em que a mãe de Momo o reencontra. O momento é fraturado dentro da estrutura do roteiro, e a mãe de Momo consegue ser mais fantasmagórica do que o seu pai, ectoplasma daquela biblioteca, esvaindo-se quase literalmente, como se a ação do laxante estivesse além do sistema digestivo.

A mãe de Momo poderia ser apenas um espectro ou uma alucinação de Momo, uma visita para marcar um ponto específico na linha de vida do garoto, onde ele abandona certas indulgências e certas muletas, como seu irmão Paulie.

Eu não diria que aquele momento efetivamente ocorreu, e isso não faz a menor diferença para o conjunto do filme. Ok, para mim faz, e isso nem quer dizer grande coisa.

Primavera

Primavera, verão, outono, inverno… e primavera é, de certa forma, outro filme correto. A construção é segura e não se permite grandes vôos. Este enfoque é muito feliz; de outra forma, teríamos um filme simplesmente folclórico.

O filme, apesar de ser protagonizado por um monge budista, não se apóia nos rituais e nos exotismos a que o diretor poderia se entregar; uma história é contada, e é uma boa história, sobre a qual não vou tecer comentários. Prefiro, antes, reparar na paleta que o diretor Kim Ki-Duk tomou em suas mãos.

Primeiro, o cenário. As montanhas são belíssimas, e o lago é quase apelativo. Situado dentro de um parque nacional, o cenário mostra a natureza se adaptando de forma radical às estações do ano, e Ki-Duk utiliza este contexto para sublinhar sua história com habilidade.

Segundo, os animais. Eles podem sublinhar os anos, ou podem estar ali apenas como recurso estético para nos lembrar de qual estação está passando. O cachorro, o galo, o gato e a tartaruga, cada um por sua vez, são o animal que habita o templo-universo, e cada um interage de forma crucial. A hilariedade causada pelo arremesso do galo ao barco e do uso do gato como pincel não deve ser esquecida por ninguém.

Terceiro, a mobilidade. O templo parece permanente, mas não é. Os movimentos sutis do princípio logo degringolam, e ele se move livre, ao sabor de vontades alheias. A impermanência está no próprio cerne conceitual do filme, mas suas partes visíveis também são apreciáveis.

Quarto, o mestre. Seja com seus estratagemas de educação, seja pela sua sabedoria em aplicá-los apenas no momento em que haverá máximo aprendizado, são soberbos. Ressalto os animais amarrados, e o arremesso da pedra contra a lata de alumínio, mas há muito mais do que isso.

E fico aqui me perguntando, sem sequer rabiscar um rascunho de resposta, se haveria uma forma do monge aprender alguma coisa senão pelo erro patético que cometeu. Seria ele algo digno se não houvesse se entregue daquela forma às suas estúpidas ações? Estando distante de qualquer tentação, haveria iluminação?

Ainda aquém da realização mais ambiciosa de Samsara, Primavera conquista pela simplicidade e pela habilidade em escapar aos maniqueísmos que este tipo de filme permitiria.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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5 respostas para Dois Filmes

  1. MM disse:

    Conseguir ser didático e poético ao mesmo tempo, é uma habilidade que sempre me causa espanto, pelo fluir e a fácil apropriação da idéia, guiada pela emoção. Muito bom seu texto! Com ele consegui redimensionar as emoções em minha cabeça, ficar alerta a outras e clarear outras tantas.
    Na minha percepção do “olhar” do aprendente, quando menino, e quando já tendo sofrido a dor e a consciência desta (adolescência), tem dimensões e profundidades diferentes. Quando adulto já próximo a ser mestre e tendo consciência do sofrimento ( ao aceitá-lo metaforizado pela peregrinação colina acima) e da necessidade de avaliar a vida por meio das diferenças, fez sua visão aumentar em amplitude, extensão e profundidade… E ele pode ver seu mundo incluído em um espaço quase infinito, centrado no meio do lago. Esses três olhares na minha percepção são marcos importantes, do amadurecer com sabedoria.
    O velho mestre, que com certeza, já possuía essa visão imensa, aprendeu até o último momento, quando a ampliou internamente… ou seja, seu centro (o movimento de sua casa), evoluiu para uma visão de 360 graus, onde ele aceitou que a vida é impermanência, independente dos diferentes pontos em que a olhamos, ou acreditamos… nesse momento ele fecha seu ciclo da vida …era hora de partir em silêncio … porque tudo que era possível já fora dito e feito dentro de sua dimensão e capacidade…
    Você tem razão, consciência e impermanência conduzem o filme, a revelia de qualquer técnica… ou se ?sente? e admira, ou apenas admira-se a bela fotografia. Ambos valem a pena
    Eu ainda estou… na ambiência do filme

  2. sol disse:

    Querido florianopolitano,

    estou me contendo.

    Imagino o “naipe” do perfil.

  3. Sofia disse:

    É como eu disse, as pessoas tão sempre querendo procurar significado em tudo, e muitas vezes coisas sutis e pequenas passam despercebidas; e é aí que mora o tesouro… 🙂 Valeu!

  4. carol disse:

    ei…
    floripa deve ser mesmo uma cidade interessante. onde moro a gente pirateia filmes bons pela net, porque encontrá-los (onde quer que seja) parece caça ao tesouro do momo antes do carnaval. e eu não sou crítica de tudo (música, cinema, etc, etc, etc, e gente também), portanto só assisto. transcender….ah….aí já é demais. beijo.

  5. Ulisses disse:

    Antes, assisti Primavera, verão, outono, inverno… e primavera e confesso que o achei um pouco outonal demais: não saí impactado da sala escura e sim incomodado com a série de “clichês orientais” (o mestre que pendura o discípulo por uma corda, o monge que sobe a montanha atrás de respostas etc.). Fora uma montagem um pouco ingênua, que não soube explorar as elipses permitidas pelo cinema – a cena em que o mestre lê a reportagem no jornal noticiando o crime é dispensável para a compreensão do todo, por exemplo.
    Agora, leio teu texto e me deparo com algumas sutilezas da estória que me haviam passado despercebidas. Quase me convenceste…

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