Diary of Dreams: Nigredo

Dias frios, chuvosos e cinzentos. Os troncos das árvores quase negros pela chuva, as nuvens deitadas sobre os morros à distância, as placas de trânsito parecendo esquecidas nas calçadas, os semáforos estranhamente vivos.

Para acompanhar o ritmo de início de outono na natureza florianopolitana, nada como puxar da gaveta um álbum novo do Diary of Dreams. Desta vez, foi Nigredo, lançado no ano passado.

A banda alemã tem produzido bastante, lançando quase um disco por ano, fora EPs e compactos, e começa a invadir os Estados Unidos. A característica básica, ainda bem, vem sendo mantida. Adrian continua mal humorado e pessimista como no longínquo Cholymelan, álbum de estréia. Aliás, ninguém consegue ser tão naturalmente pessimista quanto um alemão, e Adrian refinou o estilo, assim como refinou sua produção.

Este não é um álbum que permite uma primeira audição fácil. Adrian praticamente acabou com as linhas de baixo, o que é uma ironia, dado que ele pilotava as quatro cordas de sua banda anterior, Garden of Delight. Em Nigredo, existe a massa melódica construída sobre a base seca da percussão, sempre poderosa, desafiando alto-falantes a executá-las em sua plenitude às custas de uma possível devastação. As linhas dançantes foram reduzidas, privilegiando a percepção teatral das letras. Detalhe é que Adrian está cantando cada vez mais guturalmente, o que leva o ouvinte a exercitar bastante a percepção para capturar as suas declamações pós-românticas.

Os pianos estão lá, e as linhas mais impressionantes são as da longa abertura de Portrait of a Cynic. O lance é tão bom que o cara, se a banda e tudo mais der errado, poderia ganhar a vida com facilidade bancando o Richard Claydeman em enterros e outros eventos fúnebres.

Cannibals é a mais longa, e a que mais lembra os trabalhos anteriores; tem linha de baixo bem declaradas, as linhas sintetizadas formando-se como ondas na beira de um lago, a ponte de cordas na suspensão da percussão, as sereias sobrepondo-se como vozes esparsas no vento, e até mesmo uma guitarra na parte final.

Das que soam ao estilo novo, ressalto Krank:Haft, UnMensch e Kindrom. Ok, você não vai a menor diferença entre elas, mas vai ser muito bom ouvir este disco inteiro observando as massas cinzentas deslocando-se surrealmente pelas calçadas da ilha.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Diary of Dreams: Nigredo

  1. MM disse:

    Baixei algumas músicas…hummm confesso que não consegui me identificar, pelo menos essa noite não (como diria Lobão)…sou perdidamente romântica, e uma voz gutural nessa hora da noite, só se for no meu ouvido, sussurando que me acha o máximo…mas quem sabe no decorrer da semana eu mude de idéia (fantástico essa nossa elasticidade)…Quanto ao texto do Gilvas me apaixonei e entrei no clima …tanto que fui buscar a definição mais aproximada do que ele (o texto) me causou:
    Abismar-se: lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação (no meu caso: satisfação)
    Por mágoa ou por felicidade, sinto as vezes vontade de me abismar…assim, as
    vezes, a infelicidade ou alegria desabam sobre mim, sem nenhum tumulto
    posterior; nenhum outro sofrimento;estou dissolvido, e não em pedaços; caio,
    escorro, derreto. Este pensamento, levemente tocado, experimentado, tateado
    (como se tateia a agua com o pé) pode voltar. Ele nada tem de solene. É exatamente a doçura….(R. Barthes)

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