Takeshi Kitano: Zatoichi

Blood

A naba de ver este filme é ter visto o anterior de Takeshi Kitano, Dolls, onde ele fugia ao seu tradicional gueto criativo. Onde Dolls privilegia sutileza e baixa velocidade, Zatoichi esbanja exagero e sangue. Aliás, convém ao espectador prevenido que vá ao cinema munido de uma boa bacia, pois algum choriço pode ser feito com o sangue que se derrama. Há, pelo menos quatro massacres com derramamento superior a vinte litros do alimento predileto do Conde Drácula.

Os filmes de ação orientais possuem roteiros bem distintos dos seus equivalentes ocidentais. O herói ocidental geralmente se encontra em conflito, e acaba, depois de todas as dificuldades, em redenção. Outro aspecto é a bem marcada divisão engendrada pelo sistema hierárquico poderoso. Tal divisão é especialmente notada no encontro dos malfeitores da gangue com os fazendeiros, ou quando os mesmo fazendeiros ficam de braços cruzados enquanto os construtores reerguem sua casa.

O humor nipônico está presente em toda a sua surrealidade, o que não impede ninguém de dar boas gargalhadas, mesmo um tanto constrangidas pelo tratamento dado à sexualidade incerta de um dos personagens, e o reflexo desta no sobrinho da fazendeira.

As coreografias possuem a dose esperada de tosquice e eficiência esperada em um filme de samurai. A imperfeição, neste caso, é desejável, em lugar dos efeitos limpos demais do cinema americano. Tal limpeza, inclusive, parece um aspecto paralelo do puritanismo que abunda naquela terra esquecida pelos neurônios. Felizmente, Kitano não procurar esconder seus truques.

Entretanto, nem tudo são cortes profundos e correrias nipônicas; Kitano dá umas resvaladas. A mais óbvia é a do final, uma coreografia deslocada, onde só faltou aparecer o Rick Martin; desnecessária e constrangedora. Algumas outras passagens parecem ter sido colocadas com o simples propósito de encher lingüiça, como uma das seqüências na taberna. Tudo bem, o roteiro é ralo como sopão de mendigo, mas é aí onde deveria entrar a capacidade do diretor, de extrair um bom filme de um roteiro meia-boca.

O outro grande problema é a veracidade funcional do protagonista. Talvez seja um aspecto oriental, mas o massagista nunca titubeia, ele simplesmente passa a gilete em todo mundo, sem passar por NENHUMA dificuldade. Para não dizer que não foi NENHUMA, ele pergunta, certa hora, se tal samurai seria mais forte do que ele, mas logo fica manso ao saber que fazer sashimi do cara se enfrentá-lo no escuro. Minha cabeça aceita melhor um herói que leva uns tabefes também, e não simplesmente escangalha com a porra toda, como dito em legítimo manezês do Alto Ribeirão.

Zatoichi é bom se você espera uma boa e sanguinolenta aventura de samurai, com algumas referências interessantes sobre o modo de vida na época; esqueça subtextos e entrelinhas filosóficos, o lance é diversão, pura.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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3 respostas para Takeshi Kitano: Zatoichi

  1. Cetáceo Dourado disse:

    Gilvan.. ao vivo na academia você falou melhor do filme do que aqui. Concordo com parte do que você disse e discordo de tantos outros pedaços. O filme foi claramante feito com fotografia de mangá de segunda, que foi extamente o que popularizou o personagem no Japão. Tudo que foi filmado tinha de ser exatamente como é, com excessão é claro do maracatu japonês com direito a sapateado estilo Astaire do finalzinho. O diretor, neste sentido, não teve nem a suposta pretenção de melhorar o roteiro meia boca… é como se você desse ao Polanski ou ao Kubrick o spider man para filmar… eles iriam fazer exatamente o que o Tim Burton fez com o Batman. Ou como entrar na matinê do 007 para ver cenas de ação que convencem. Em suma, você estava com o espírito preparado para ver um filme de samurai, tipo Depois da Chuva, ou Sete Samurais, mas este filme é, na verdade, muito mais a cultura do neo-orientalismo (subentende-se mescladinho com velores mais novos, vindos do lado de cá) do que cultura tradicional japonesa.

  2. MM disse:

    Após ler seu texto, vi a grande besteira em sair na metade do filme, a influencia kilbiliana, o sangue jorrando além da tela, meus neurônios afogados, me levou a uma cegueira de todas as minhas entradas (meus sentidos) e as minhas duas saídas se manifestaram na linguagem sem informação e no movimento sem ação, apenas um impulso… ah se eu tivesse antes, lido esse texto, teria aquietado minha alma, aguçado minhas entradas e dado boas risadas. Vale uma nova tentativa…

  3. Bina disse:

    veja kikujiro: fofo e sem todo o sangue.
    se quiser, te empresto o dvd.

    aliás, o desmaio passou perto? 🙂

    beijocas

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