Anatole France: A Ilha dos Pingüins

Tenho uma especial bronca por livros com orelhas mal ajambradas, assim como aqueles descritivos na última capa; ambos costumam ser, no mínimo, inúteis, e, no mais das vezes, mesmo nocivos na confusão que causam.

Qual foi minha surpresa ao ler o volume de Anatole France intitulado A Ilha dos Pingüins, sintomaticamente desprovido de orelhas, ao que vou pedir que me poupem os infames que acaso freqüentem este espaço. Voltando ao ponto, o resenhista do livro foi feliz em sua concisão e síntese, e eu quase que não preciso escrever nada aqui, e sim reproduzí-lo. Só de teimosia, não o farei, até porque o livro guarda encantos o suficiente para que nele se demore um leitor de fibra.

A história começa com São Mael, homem de deus que faz alguns milagres, cria uma reputação, e depois comete algumas barbeiragens pavorosas, entre as quais batizar seres desprovidos de pecados, o que causa a primeira das assembléias polêmicas, onde France diverte-se traçando os argumentos de vários lados nessas contendas absurdas que apenas nossa organização em sociedade poderia prover aos viventes.

Os episódios descritos são facilmente reconhecidos por quem tenha alguns conhecimentos básicos de história, principalmente da francesa, e divertem pela forma peculiar como France conta cada um deles. Hábil como contador de histórias, o escritor intercala fábulas, trechos filosóficos, e descrições de batalhas burlescas, tudo em um espírito que remete ao modo como as histórias são contadas nos desenhos animados. Com efeito, não é difícil imaginar o elenco de Looney Toons envolvido na tarefa de transformar em cinema esta obra de literatura.

France oscila. Esquece a natureza primeira dos pingüins assim que ela deixa de ser interessante literariamente, e escreve cada bloco de capítulos com um sabor diferente. Este fato não é problema, definitivamente, dado que France se atém habilidosamente ao espírito de cada época, e nos delicia com seus ângulos inauditos, e com sua ironia sempre marcante.

Ainda que pessimista, a fábula de France é mais divertida do que aquela que Orwell descreve com seus porcos. Os governos, para France, sempre são corruptos, e a podridão é acompanhada pelo clero em suas incursões ao saque do povo. E não existe piedade com o povo, aqui igualmente culpado em sua preguiça de pensar, merecendo a dominação pelos seus algozes.

A Ilha dos Pingüins compromete-se igualmente com a educação e a diversão, provando que esta última não precisa se limitar a edições de medíocres como Dan Brown, e nem aquela primeira a chatos acadêmicos.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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