Ficção No. 39

Munch, Dead Mother

Sentado na cadeira do consultório, Marco fecha os olhos, como nas sessões anteriores. O terapeuta mexe nos óculos, e aperta o botão. O barulho da fita tranqüiliza Marco, que sente-se, por um instante, fitando o interior de suas pálpebras. Marco começa a falar.

“Eles chegaram em algum dia disperso. Eu estava disperso, eles chegaram, e eu não saberia dizer exatamente como. Eu vi que pulavam o muro de trás de casa, e sabia que isso iria ocorrer, bastante tempo antes. Assim, tive tempo de se preparar, e sair pela porta da frente. Olhei para trás ainda uma vez, e vi que eles estavam circulando pelas calçadas da frente de casa, entrando também pelo portão.”

“Como eles eram? Como eles são, ora, eu fecho os olhos, e eles estão lá. Eu nunca mais voltei para minha casa. Ah, sim, eu conto. Eles são grandes, mais altos do que eu ou você. Têm cabeções arredondados, e olhos que lhes ocupam mais da metade do rosto. Eu os vi de longe, mas sei de quase tudo; eles são muito indiscretos, sentiam-se à vontade quando invadiram minha casa. E as dos vizinhos, imagino; eu não fiquei para ver o que foi feito dos vizinhos. Sim, os olhos são enormes e negros e com arestas que refletem bem nas bordas, quase como que brilham. E são magros, secos, eu diria que não têm carne, e talvez não tenham um esqueleto, semelhantes a grandes humanóides cujos membros remetem a baratas, em sua economia estrutural baseada em exoesqueleto, com as rebarbas nos antebraços, e posturas estranhas de tais membros. Eles andam devagar, mas parecem poder ser realmente rápidos se quisessem. Eu não corri, entenda, apenas caminhei, e só olhei uma vez para trás. Logo eu apenas caminhava”

“Parei um instante quando pisquei. Porque o mundo tinha voltado ao ponto onde eu passava na frente de minha casa, e via eles andando por ali. Eu passava diante da minha casa, e eles me olhavam como se pudessem, como se quisessem provar que poderiam me capturar, sem grande perseguição, mas apenas ficavam ali, certos de que minha repulsa ultrapassaria com folga minha vontade de retomar minha casa e minhas coisas e meu mundo que agora servia de cenário pitoresco para eles. A náusea me tomava quando imaginava o que haviam de fazer em cada cômodo, e eu tinha ânsias quando imaginava, por segundos, pupas nos corredores, e gosmas diversas nas paredes da cozinha, escondendo os armários embutidos.”

“Reparei que era sempre a mesma coisa. Eu caminhava por quilômetros por uma estrada que me levava para longe de casa, desde que mantivesse meus olhos abertos. Assim que as pálpebras se encontravam, lá estava eu quinze passos antes de minha casa, passando pela frente da casa do vizinho, e contemplando as criaturas horrendas andarem por entre minhas plantas, brincarem com meus gatos, arranharem as janelas.”

“Decidi-me pela simplicidade da tenacidade, por mais estúpido que pudesse parecer numa primeira análise; eu manteria os olhos abertos indefinidamente, a qualquer custo. E assim o fiz, mesmo com as sensações abjetas que tal procedimento me causavam. E por dias vaguei pela estrada, até que parei de sentir a dor nos olhos, até que senti que eles colavam, até que senti que a visão empalidecia, até que senti um deslizamento para o alto, até que nada mais via, e apenas sentia o asfalto sob meus pés. E não mais poderia cerrar pálpebras, e assim as criaturas repulsivas estariam longe de mim, e eu poderia fazer qualquer coisa. Voar talvez.”

Marco saiu do transe sentindo algo em sua canela direita, e não foi de pronto que pôde aceitar o fato de que seu terapeuta mordia avidamente sua perna, e tinha sangue entre seus dentes, além de fibras diversas do tecido de Marco. O osso ainda não aparecia, mas ele sentia que devia estar perto, pois agora percebia a dor.

A surpresa não o pegou de pronto, e o terapeuta teve chance de roubar-lhe um naco maior de carne, e Marco pode realmente entender que as coisas eram por demais intrínsecas, quando o interior de sua perna revelou-se uma estrutura marrom com reflexos metálicos. Dois dias depois, aceitou os fatos, e largou sua casca de carne, voltando a morar em casa.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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2 respostas para Ficção No. 39

  1. MM disse:

    Fantástico, a melhor ficção (com cunho psicanalítico) que li nos últimos tempos. Preguei os olhos tal qual o personagem, mantive o coração acelerado, revivi emoções passadas, fiz insigth…tudo de bom e do melhor…estou em total abismamento, assombrada, admirada,invadida.
    Caramba!

  2. Zuza disse:

    Engraçado,ao ler lembrei de um livro do Kafka q tô lendo, talvez pelo uso de detalhes minuciosos ao descrever os fatos.

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