Dois Filmes

Vera Drake e Betty Blue são dessas criaturas estranhas e maravilhosas, as tais mulheres. Lembro de conversar com meu amigo Christian Rocha, escritor de mão cheia e cuidado irrestrito, e penso que estes dois filmes têm tudo a ver com aquele papo.

Vera Drake

Vera é uma criatura de Mike Leigh, e isto já é, como diz outro camarada, toda uma declaração de princípios. Leigh varia um pouco o seu enfoque da existência cotidiana inglesa pela transposição de época; Vera habita as ruas de uma Inglaterra posterior à suplantação dos delírios de Hitler.

Vera vive uma vida perfeita, dentro do que isso possa significar num paí­s onde se mantém uma rainha. Seu marido é trabalhador e diligente, seu filho é bem sucedido numa loja de roupas, e sua filha é retraída ao extremo, o que não é exatamente incomum ou impassível de manter numa vida feliz. Vera ainda tem as manhas de ser uma pessoa atenciosa e querida por todos que ajuda.

Mas Vera tem algumas idéias diferentes da legislação vigente sobre a interrupção da gravidez, e isso acaba gerando um pandemônio em sua vidinha, aquela, perfeita, lembra?

A boa sacada de tudo é a mão firme de Leigh, que conduz o filme entre linhas apertadas, nunca deixando-o descambar para a pieguice a qual o roteiro se atira o tempo todo. As atuações aparentam ser quadradas no começo, talvez pela estranheza das falas naquele cockney fortíssimo, e em alguma rigidez do estilo britânico de filmar, o que é  de se esperar de um tradicionalista criativo como Leigh. Imelda Staunton poderia roubar a cena, como comentado em todas as resenhas que li, não fossem os outros atores de calibre semelhante, e se o diretor não levasse seu trabalho tão a sério.

Betty Blue

Betty é uma doida de outra esfera; sua película esbanja exuberância, ainda que seu universo possa ser austero em alguns momentos. Betty é louca, louca. Zorg é seu contraponto perfeito, e o fato dela tê-lo encontrado é um indício de que o Universo ainda possui um pouco de senso. Sem a segurança de Zorg, Betty se dissolveria, vagaria por torvelinhos de sensações, até ser dopada para não mostrar ao mundo que os pés não precisam ficar no chão. Zorg, por seu turno, poderia ficar para sempre em seus chalés, um rochedo respeitado secretamente pelas ondas que o atingem impiedosamente.

Mas a moça o arranca de seu mundo, e não cabe aqui discutir se havia amor ou se apenas a exuberância da menina é o que havia para arrastá-lo nas aventuras que se seguem. Zorg é um caso de estudo perfeito para ilustrar o efeito catalisador da mulher sobre o homem, no sentido deste alcançar seu verdadeiro potencial pelas ambições daquela.

E Zorg vai ser a rocha em meio ao turbilhão que é Betty. Firme como é, não enlouquece de verdade, mas apenas a acompanha, cuida de ser quase tão louco como forma de amá-la, e o tentar escrever de novo é apenas uma faceta visível e menor. Zorg é tão mais organizado e coeso quanto mais Betty despiroca.

O filme, na sua versão de diretor, é um tanto longo demais, e arrisca perder sua tensão em alguns momentos, mas nada que lhe roube o efeito final neste escriba, talvez comovido, talvez identificado com a epopéia. Sim, identificado mesmo.

***

Na rua, a noite está levemente fria, e o sobrenatural se apresenta na forma de um balão azul, que vai caminhando com o vento quieto, aparentando ações quase conscientes. Observo-o vir em minha direção, sem movimentos de minha parte. Ele percebe, e logo desiste de mim, e se deita em uma escada de mármore na frente de um prédio.

Pela espinha dorsal vão as mulheres também. Magníficas e loucas, seja na versão francesa, que explicaria com folga a existência de versos como:

When the lights go out
All over Europe
I forget about old Hollywood,
‘Cos Doris Day could never
Make me cheer up
Quite the way those French girls always could

Ou na versão recolhida e doída de Leigh, elas dão movimento a nós, homens, e é impossível não lembrar de outros versos:

Put it on
And don’t say a word
Put it on
The one that I prefer
Put it on
And stand before my eyes
Put it on
Please don’t question why

Can you believe
Something so simple
Something so trivial
Makes me a happy man
Can’t you understand
Say you believe
Just how easy
It is to please me

Because when you learn
You’ll know what makes the world turn.

E eu só posso agradecer.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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