Claude Miller: La Petite Lili

Le Petite Lili

Estou aqui sentado na frente do computador, fazendo várias coisas. A primeira delas é o exercício da minha indecisão quanto a encarar o chuveiro, que provavelmente não vai vencer a inércia da água gelada dentro da caixa no teto. A segunda delas é uma certa estupefação pelo ímpeto de escrever sobre qualquer coisa, impulso que me move a expor minhas bobagens aqui. Existe uma terceira, e esta poderia ser, uhm, uma razão, ou algo que se aproxime de forma assaz verossímil.

A de número três, assim, é meu sorriso quanto a uma certa forma que certos artistas franceses têm de criar livros ou filmes onde pouquíssimo se mostra, a despeito do muito que se vivencia. Quase escrevi “experimenta”, mas “vivência” é um substantivo mais correto do que “experiência” aqui. Claude Miller é desta escola que adora imagens. Seu filme é artesanal, suas imagens são belíssimas, signos em si mesmas, puras. Quando adere ao diálogo, é para o concurso do movimento e do gesto que ele o faz.

Miller filma divagações de seus personagens, e elas, tal qual sói às divagações triviais ou vulgares, devoram o tempo. Quando outro filme toma forma dentro do filme que começamos a ver, notamos que estamos mergulhados numa história que não nos deixa espaço senão para a apreciação. Que o filme se dilua dentro do segundo filme, é esperado; como terminar um filme com um fecho formal se não se fez menção de iniciá-lo senão por pinceladas espalhadas?

Existe um aspecto prático, uma série de acontecimentos, ainda que sutis e homeopáticos. Existe uma menina que foge para encontrar seu desejo de realização, existe a moça que espera sua vez, existe o homem que aproveita a circunstância ainda que não seja realmente importante, existe a mulher que teme e resigna-se, existe o jovem que se veste das bobagens inesquecíveis da juventude, existe o lacônico ser que só quer aquilo que já nem sabe mais, e existem os amantes e os nós que o cinema francês tanto ama.

Entretanto, nada disso sai escrito em quem assiste. O que fica é um sentimento de aquilo na tela foi, de alguma forma, arte, e que, de algum modo, nos atingiu. O resto é diversão e umas boas gargalhadas, porque a leveza ainda é um charme irresistível, ainda que não se saiba se vem de Tchecov ou de Miller.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Claude Miller: La Petite Lili

  1. zuza disse:

    Ô gilvan.

    Ficou bem meia boca essa resenha né? Ou o filme é ruim, ou tu não tavas nem um pouco afim de escrever…

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