Julio Cortazar: Todos os Fogos o Fogo

Todos os Fogos o Fogo começa na França, com os pés da ficção firmes no chão seguro de um evento incomum, quase bizarro, nas vidas de pessoas absolutamente normais. No primeiro conto, algumas vezes a plausibilidade ameaça abandonar Cortázar, chegando mesmo a dobrar a esquina, mas logo ela retorna, rosto lívido da responsabilidade que é dar forma aos escritos do argentino.

Ao longo dos contos, Cortázar mostra correção exemplar, escreve de forma segura, e desta forma bem amarrada tira força para decolar em vôos estéticos interessantes, tais como as intercalações de vozes em duas das narrativas, que tornam atraentes roteiros inicialmente apenas passáveis.

Algum historiador da literatura já deve ter rastreado a razão pela qual a morte abunda nas conclusões das narrativas, e não vai ser este artista do blefe quem vai sair chutando possibilidades, ainda que a proposta seja tentadora.

A faceta fantástica do autor parece tímida, talvez pela necessidade de apresentar e desenvolver os personagens em um espaço curto de papel. Existem aqueles vôos aos quais eu me referia num dos parágrafos anteriores, mas eles não chegam realmente a assustar leitores acostumados a outros titãs da literatura da América Latina.

Depois de passear por vários lugares, e várias épocas, o livro estaciona na França, por razões que eu também desconheço, e sobre as quais mais uma vez evitarei especular. Mas que ia ser divertido, ah, isso ia!

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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Uma resposta para Julio Cortazar: Todos os Fogos o Fogo

  1. MM disse:

    Vc escreve muito bem e sua coluna faz parte do meu café da manhã e de minhas reflexões noturnas…ou seja, uma contribuição permanente e transparente para minha ?cultlife?. Nunca li Cortazar, que acredito ser apenas um pecado venial dado a complexidade de seus textos, segundo andei lendo, movida pela curiosidade provocada por esse escritor (Gilvas). Entendi, após ler sua coluna e parte de uma tese, que a escrita de Cortazar é multidimensional, formada por uma pluralidade de percursos narrativos labirínticos, cinéticos, fazendo com que o pensamento do leitor viaje em uma máquina do tempo, onde um transbordar de imagens e sensações se faz presente…A leitora aqui ficaria agradecida se houvesse um empréstimo da referida obra…

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