The British Sea Power: Open Season

Nos dias atuais, personalidade é mercadoria rara entre nas linhas de produção de bandas de rock. Um número imenso de bandinhas seguem suas fórmulas gastas e velhas, e não é muito difícil reconhecê-las: quase todas se deram nome que consistem em “the”, seguido de algum substantivo ou adjetivo no plural. Coloque na mistura algum semanário inglês, blog indie ou revista americana para jovens alternativos, e eles surgem, por geração espontânea: Strokes, Libertines, Vines, e por aí vai a lista de coisinhas detestáveis.

Para alívio da platéia, existem exceções. A banda inglesa British Sea Power é uma delas, e enfrenta com classe o desafio do segundo disco. Sem ousar, Hamilton e Yan mostram uma face mais ensolarada de suas composições.

Hamilton, mais sutil, nos brinda com as duas canções de fechamento. Um chill out em The Land Beyond, simples e comovente, e um épico arrastado e heróico em True Adventures. Dele também é a deliciosa How Will I Ever Find My Way Home?, que é um daqueles hinos de três minutos, cheio de riffs que deixaram Chuck Berry babando, perfeito para se ouvir pulando sobre o colchão, fazendo emulação aérea de qualquer instrumento.

A abertura do álbum fica com Hamilton. It Ended In An Oily Stage ganha o ouvinte de cara, com seus riffs espertos, e seu refrão sobre o cara que encontra Deus num estacionamento. Like a Honeycomb resgata os sussurros que Ian McCulloch fez marca registrada em seus anos com os homens-coelho. Tudo isso embalado por guitarras que são tocadas como guitarras de verdades, e não como violões de corpo sólido, e, diabos, isso é uma lição que o rock alternativo brasileiro deveria aprender.

Existe uma coisa especial no som deles. Parece que tudo o que eles gravam soa como se envelhecido, guardado em barris de carvalho por anos. Não que soe velho, mas soa sábio, adulto, sólido, ancestral, real. O negócio soa tão legal que parece que eles fizeram algo ilícito, tipo vender a alma ou coisa que o valha, para soarem tão bem.

Este álbum traz uma nova influência dos guris. Victorian Ice parece ter sido pinçado do repertório imaginário dos Commotions, escudeiros do glorioso Lloyd Cole em suas aventuras nos anos oitenta; é uma canção com um gosto de tarde ensolarada, e te faz sentir-se bobo e feliz, com vontade de carregar um livro aberto, lendo enquanto caminha em alguma praça verde.

Uma das influências que, felizmente, enxergo pouco na banda, é a do Galaxie 500, supervalorizada bandinha americana, da qual o British Sea Power gravou Tugboat. Espero que a sombra nefasta de Damon e Naomi fique longe de Hamilton e Yan, e que eles mantenham sua riqueza imagética em detrimento do tédio ianque.

E passarinhos. Eles chilream em algumas faixas, dando uma atmosfera estranhamente lúcida. E aí vem Larsen B, um épico de navegação com gosto de sal, um contraponto fabuloso ao urso da capa, uma das alusões russas que vagam pelas outras faixas deste álbum.

Os lados b não deixam por menos. Green Grass of Tunnel é uma escolha inusitada e divertida. Trazer a canção da banda eletrônica Múm para o universo das guitarras deve ter consumido algum neurônio dos rapazes, que foram bem sucedidos, ainda que o vocal da mocinha islandesa faça falta.

When I Go Out sai correndo atrás de alguns bois, tocando gaita, com direito a piano, e vocal inspiradão. Crystal Horse fica presa dentro de casa, cantando num dia de preguiça. Ainda devem aparecer mais lados b com os próximos compactos; uma das características da banda é sua prolificidade, e eles não devem decepcionar.

Agora que lançaram o disco dos caras no Brasil, bem que alguém podia se animar, e trazê-los para tocar aqui.

Anúncios

Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
Esse post foi publicado em Música e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s