Lost

Lost Person

Tem dias em que me pego olhando o livro de presença do dojo, folheando as páginas passadas, vendo os nomes, reconhecendo as pessoas pelo jeito como escrevem, vendo os dias cheios e os dias vazios, indagando-me sobre as pessoas cujos nomes não consigo ligar aos rostos.

Dessas divagações, a mais saliente refere-se às pessoas que somem. Entre os requisitos para que sumam, é claro, encontra-se o fato de haverem aparecido, o que já é espantoso em si; todavia, somos diversamente sensíveis às circunstâncias distintas do surgimento e do desaparecimento.

Talvez as pessoas que surgem sejam um acréscimo, elementos novos a encaixar em um mundo já carregado; talvez estejamos tão distraídos que não sintamos as pessoas sumindo. Realmente não sei o que se passa; apenas reparo, não raro, que existem lacunas nos espaços que habito, mesmo que temporariamente.

A impressão inicial que surge é a de que estamos fixos, e as pessoas passam por nós. Percepção não totalmente errada, ela peca por nos colocar no referencial. E, efetivamente, olhamos de nosso ponto de vista, de nossa rocha, para o mundo, sem perceber, facilmente, que todos, como nós, passam.

Os espaços que ocupamos se fazem vivos pela nossa presença viva. Bares, escritórios, academias, salas de aulas, manicômios, cozinhas familiares, quartos de motel, praias, cantos de muros, bancos de praças, sombras de árvores, cruzamentos de calçadas, corredores de hospitais, passagens em canteiros de estufas; estes e outros lugares se alimentam de nossa respiração, de nossos cheiros, de nossas vozes, de nossos suspiros, de nossos olhares. E guardam-nos, envolvidos em colunas frias, em revestimentos silenciosos, em cascas secas de árvores, mesmo depois que fomos, são memórias que nos movem ao retorno.

E nos transportamos. Para pessoas que estiveram ali, para pessoas que gostaríamos que ainda estivessem ali, para pessoas que gostaríamos que tivessem estado ali, aquelas que apenas ensaiaram entrar em nosso mundo, e que, por mais um desses mistérios da química humana, retomaram outras atmosferas.

De volta ao livro, procuro a caneta para assinar, e fechar aquelas páginas, deixar quietas as lembranças escritas, acalmar as lembranças abstratas que acabam por espalhar-se por toda a minha paisagem mental. Naquelas formações geográficas da mente, elas caminham, e, de vez em quando, consigo divisar um rosto, e eles parecem bem. ufa.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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7 respostas para Lost

  1. Pingback: Capitalismo Pt II: Impermanência « sinestesia

  2. rosa disse:

    Aparecem e somem pessoas a toda hora, mas somente as que têm um certo significado pra gente é que ao sumirem nos fazem sentir essa coisinha chamada saudade; esse vazio que em algum outro momento já fora preenchido.

  3. Carol disse:

    Tem coisas que botam a gente comovido feito diabo…
    Desculpe a ausência, mas ando tentando estar presente num lugar mais complicado: aqui.
    Beijos.

  4. MM disse:

    Seu texto me comoveu muito…uma flexa disparada direto no meu coração… Onde aparentemente há uma certa tristeza ou nostalgia, observo tb a alegria. Sentir saudades, constatação da ausencia de dias felizes vividos. Que bom saber que se viveu tantos momentos bons, que bom que se vive momentos bons agora e que serão saudades.

  5. Brian disse:

    Eu espero poder retornar àquele livro um dia…

    Tenho vontade. Meu ombro já não incomoda tanto (exceto em movimentos muito específicos) e já me sinto seguro de começar a tentar a treinar. Só me falta arranjar tempo para voltar…

    Gostaria de voltar de forma informal… voltar a ser Uke, Nage… e ver quais são meus novos limites… e se, por ventura, descobrir que não poderei mais treinar… paciência.

  6. Ian disse:

    Dae Gilvan? Tudo certo contigo? Curti muito teu texto, aliás, como curto tudo o que você escreve. Concordo plenamente com você, estamos só de passagem neste “mundão véio”, e às vezes nos esquecemos disso! Mas também às vezes esquecemos que estamos vivos… e nos transportamos para outras esferas! E o pior é que existem pessoas que colocam suas vidas num patamar de importância algo equivalente de como se o mundo fosse acabar… e se esquecem de que estão de passagem!
    Abração cara! Temo que sair pra toma umas aí!!!

  7. Ulisses disse:

    Já passei por aquele livro… bons tempos que deixaram saudades.

    Grande abraço Gilvan.

    Ulisses.

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