Joseph Heller: Retrato do Artista Quando Velho

como em joyce, dizem

Marquez dizia, ou talvez ainda diga, que o escritor escreve apenas um livro, e este o persegue durante toda a sua obra. Uma forma mais doída é dizer que o escritor escreve apenas variações do mesmo livro que ele traz em si.

E é assim? Não sei. Entretanto, dá para dizer que certos escritores são perseguidos por um mote durante toda a sua vida. Eu poderia dizer que o mote pode ser parte do impulso primal que ele sente e que o impulsiona a escrever, mas hoje estou pouco à vontade com a pomposidade. Sério.

O ponto é que não dá para saber se Heller realmente quis ser transcendental, ou se foi apenas um chato que não sabe mais escrever ficção. Extremos, enfim.

Se for o segundo caso, os editores publicaram postumamente um romance do qual ele tinha vergonha, aposto, assim como o editor de Eugene Pota sentiria.

Todavia, o dia está tão bonito, e eu posso pensar que ele realmente tem noção do universo onde vive, uma noção acurada e especial. Heller, assim, sabia que o mundo estava para entrar em uma era de câmeras vasculhando a vida de pessoas banais, como o seu Pota e a sua Polly, numa visão crítica dos reality shows.

Sua percepção permitiria, na minha fantasia, que ele tivesse as manhas de sacar que o hipertexto, e a conseqüente auto-referência no fim da linha, tomariam conta da forma como as pessoas lêem o mundo.

A confusão entre as duas opções ficariam ainda coerentes com o primeiro romance dele, Ardil 22, e sua introdução à confusão da contemporaneidade, aí mergulhadas as dezenas de referência aos clássicos dos escritores americanos, aos finais patéticos das vidas deles, ao sexo na terceira idade, aos momentos perdidos de qualquer um, à humanidade novelística dos deuses gregos, e mais o que tu achares interessante, dado que somos interativos agora.

Ok, esquece a última parte, mas o resto é verdade, daquelas que você poderia escrever em um caderno de segundo grau em caneta preta.

Fecho o volume, pensando em Tom Sawyer, e é muito bem pensar em Tom Sawyer, ou em qualquer personagem de Mark Twain. Foi bom ter lido este livro, mesmo que o senhor Joseph Heller apenas tenha me pregado mais uma peça.

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Sobre gilvas

Pedante e decadente, ao seu dispor.
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